sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Compramos um Zoológico

(We Bought a Zoo, EUA, 2011) Direção: Cameron Crowe. Com Matt Damon, Scarlett Johansson, Thomas Haden Church, Maggie Elizabeth Jones.





Assistir a um filme de Cameron Crowe costumava ser uma experiência sensorial. Desde sua estréia, com Digam o que Quiserem, estrelado por John Cusack, passando pela ode ao grunge Singles – Vida de Solteiro, até as obras máximas Jerry Maguire e Quase Famosos, os trabalhos do jornalista musical como diretor eram compostos por declarações sinceras à cultura pop somadas a excelentes histórias  embaladas por indefectíveis trilhas sonoras.  Até mesmo Elizabethtow, nos momentos road movie,  conseguia captar um pouco daquele positivismo de volta por cima perpetrado por Maguire.


Chega 2011 e estréia nos cinemas Compramos um Zoológico, tentativa de Crowe em adentrar no mundo dos filmes família. A história do jornalista desempregado e viúvo Benjamin Mee (Damon), que, após a perda da esposa, passa a cuidar dos dois filhos pequenos sozinho, possui até boas intenções, mas o resultado final fica bem aquém do esperado em um filme de Crowe. Sim, os elementos da cultura pop estão lá. O nome do adolescente filho de Mee é Dylan, numa referencia a (ops!) o cachorro da família; na trilha sonora temos Wilco, Temple of the Dog, e o próprio Dylan. A trilha original composta por Jónsi, vocalista o Sigur Rós, é de uma beleza única, conseguindo captar toda a beleza selvagem do lugar onde fica o Zoo. Mas todos esses itens parecem deslocados.


Mas o que há de errado com o filme? Inicialmente, o desconforto fica por conta do quão caricatos são os personagens. É curioso observar um homem, pai de dois filhos, que se recusa a ser demitido por achar que receber os benefícios será algo humilhante. Logo depois vemos esse mesmo homem enterrar suas economias em um Zoológico falido que, por sua vez, o levará a falência. Ao que parece, o único personagem que possui os pés no chão é o irmão contador de Mee, Duncan (Church) que dá os melhores conselhos econômicos para o caçula, mas é rechaçado pela cunhada mesmo depois de morta.


Os elementos que se tornaram a marca de Crowe, citados acima, como a utilização de inspiradas músicas na trilha sonora ainda se fazem presentes. No entanto, aparecem de forma forçada. Não há uma junção entre as imagens e enredo que vemos com as músicas que ele parece inserir no filme de forma a apenas demonstrar um bom gosto musical. Diferente de obras pop, como Elizabethtown e Vanilla Sky, esse Compramos um Zoológico carece justamente desse apelo pop que Crowe insiste em inserir na trilha, mas que não encontra reflexo na trama.


Sendo assim, resta contar os clichês que aparecem no decorrer dos longos 124 minutos de projeção, como o fato de que o Zoo ficar a 14 km do mercado mais próximo e Benjamin afirmar que não irá percorrer toda aquela distância para comprar manteiga apenas para, no segundo seguinte, já o vermos de volta com o saco de compras. Ou quando, após toda a reforma feita no Zoo, recebe-se a visita do fiscal que dará a licença do lugar e há um suspense barato sobre a possibilidade dele negá-la mesmo após não ter encontrado um único defeito no lugar. Ou, ainda, a cena em que os adolescentes se abraçam sob juras de amor em uma lastimável tentativa do diretor em cativar o público.


No mais, os pontos positivos ficam por conta da garotinha Maggie Elizabeth Jones, mais uma descoberta de Crowe, que parece ter um tino aguçado para revelar talentos infantis, e as impagáveis tiradas de Thomas Haden Church. "Você não precisa comprar um zoológico para agradar a Rosie. Ela só tem quatro anos. Um papel de parede com animais na tela do computador já é suficiente". Hilário!





Tudo pelo Poder

(The Ides of March, EUA, 2011) Direção: George Clooney. Com Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei.




Em determinado momento de Os Idos de Março, novo filme dirigido por George Clooney, (adaptado para o Brasil como Tudo pelo Poder, em mais uma óbvia e auto-explicativa forma de facilitar a vida do publico que tem preguiça de pensar), vemos o governador Mike Morris, interpretado por Clooney, dentro de um avião conversando com os assessores responsáveis pela sua campanha para presidente. Durante a cena, uma turbulência faz com que a aeronave balance bastante, nunca clara referência ao processo pelo qual aqueles homens estão passando.

Após já ter sido arrebatado por aquela história, o espectador se depara com essa metáfora sutil e bem executada. Mais um sinal da maturidade de Clooney na cadeira de diretor. Em seu novo trabalho, Clooney demonstra uma segurança de veterano. Com apenas quatro filmes no currículo, o diretor apresenta um trabalho sóbrio, coeso e, o mais importante, relevante para uma pertinente análise da atual cena política não somente estadunidense, mas no âmbito democrático mundial.

Stephen Meyers (Gosling) é um dos assessores em questão. Um jovem que se considera casado com a campanha do governador para chegar a Casa Branca, mas que ainda não possui a tenacidade necessária para sobreviver naquele mundo sujo no qual a ética é colocada em segundo plano quando galgar patamares maiores na hierarquia política é a intenção de seus adversários e, também, de seus pares.

Após cometer o erro ingênuo de se encontrar com o chefe de campanha (Giamatti) do candidato adversário, Meyers se vê dentro de um jogo de intrigas no qual ser manipulado de modo pernicioso é visto como um meio rotineiro e natural de sobreviver no dia-a-dia político. Soa até deslocado ver o chefe de campanha de Morris, Paul Zara (Hoffman) usar conceitos de lealdade como justificativa para sua atitude de demitir o colega após descobrir tal encontro, uma vez que a opção de se encontrar com o rival não teve nenhuma má intenção.

O filme trabalha esses falsos conceitos de lealdade de modo a ilustrar que naquele universos, essa palavra pode ter diversas conotações. A suposta amizade composta de favores entre Meyers e a jornalista Ida Horowicz (Tomei) comprova isso. São jogos de interesses que colocam a relação entre aqueles indivíduos fora de qualquer noção de caráter.



Fiel a Morris, Meyers não desconfia que a imagem de bom homem do governador possui segredos que vão afetar não somente a campanha, mas, também, sua própria vida e posição de assessor. É quando um fato inesperado muda a postura profissional de Meyers, levando-o a tomar as rédeas da situação ao agir de modo idêntico aos seus pares no que se refere a conseguir permanecer no controle sem se importar em quem vai se pisar para alcançar esse intento. 

Tudo pelo Poder é um filme feito para a atual conjuntura política estadunidense. Seu roteiro, escrito pelo próprio Clooney junto com Grant Hesloy, também responsável por Boa Noite Boa Sorte, consegue referenciar desde o governo Clinton (Você ensina estagiárias, não fode com elas, explica um dos personagens) a Obama (qualquer semelhança do cartaz estilizado com o rosto de Morris com o do atual presidente não é mera coincidência). O próprio personagem de Clooney busca ser um amalgama dos recentes governos americanos. Um candidato que afirma não ter religião e pede que os que não concordam com as opiniões dele não apóiem sua candidatura.



Contando com mais uma eficiente trilha sonora de Alexandre Desplat (O Escritor Fantasma), que consegue captar momentos de tensão de forma a não usar a música para manipular as reações do espectador e, sim, permitir que ela ilustre as cenas de modo natural, o longa de Clooney mantém uma atmosfera de paranóia sem cair no clichê de usá-la para causar falsos sustos. A fotografia de Phedon Papamichael consegue captar a aspereza debaixo das lâmpadas fluorescentes do escritório de campanha do Morris. Do mesmo modo, na bela cena em que Meyers se encontra com a estagiária Molly (Wood) na escadaria do prédio, as sombras são utilizadas de modo a tornar o assunto que o casal discute ainda mais delicado. E a falta de intimidade dos dois naquele momento, choca justamente por sabermos como relação deles foi abalada.

No final, a impressão dos bastidores dos jogos políticos que Tudo pelo Poder transmite é a de que não há nada que uma boa imagem não mude. Votos serão sempre conquistados por aqueles que conseguem manipular e trabalhar a própria imagem de modo positivo. Não importa quanto sangue alheio ou abortos estejam escondidos em suas trajetórias. Na foto emoldurada com aquele sorriso falso não existirá manchas.

Yes, THEY can!

sábado, 1 de outubro de 2011

Premonição V

(Final Destination V, EUA, 2011) Direção: Steve Quale. Com Nicholas D´Agosto, Emma Bell, Arlen Escarpeta, Miles Fisher, David Koechner.




A morte é uma criatura estúpida. Dizem por aí que errar é humano. Persistir é que é burrice. Certo, a morte não é humana, mas errar cinco vezes a torna mais do que estúpida. Ao escrever isso, eu só penso na morte como aquela velha, com capuz e foice na mão. E pensar nessa coisa patética como sendo a perseguidora dos jovens de Premonição V torna a sessão em 3D ainda mais divertidinha do que ela já é.

A premissa é a mesma dos outros quatro (!) filmes da franquia. Grupo de jovens consegue enganar a dita cuja a partir do momento em que um deles tem uma premonição que, se não for feito algo como picar a mula logo, vai se concretizar nos próximos minutos. Foi assim com o acidente de avião no primeiro, com a auto estrada no segundo, com a montanha russa no terceiro, com a corrida de carros no quarto e, agora, finalmente (e, supostamente, encerrando a franquia) com o colapso de uma ponte no quinto. A elaboração das mortes em cada um deles é palpável.

Talvez seja esse fator que atraia as pessoas ao cinema. O fascínio pela desgraça alheia. E o filme explora isso ao máximo, chegando ao ponto de deixar de ser uma obra de terror para se tornar uma comédia. Pelo menos, as gargalhadas na cena em que uma jovem é empalada no mastro de um veleiro deixam bem claro que o público não é mais suscetível a choques visuais.

Mas vamos à trama: Sam é um jovem americano estudante de gastronomia que tem uma proposta de estágio em restaurante na frança. Sua namorada, Molly, termina o namoro com ele no intuito de não atrapalhar as ambições do rapaz. Além deles dois, fecham o grupo de futuros mortos (ah, vai dizer que você não sabia?): Peter, sua namorada que treina ginástica olímpica, Candice; a revoltadinha e míope, Olivia,; o engraçado e patético Isaac, e, fechando, Dennis (David Koechner, o Packer, de The Office), chefe de todos eles no escritório que administra uma siderúrgica. 

Com a idéia de aproximar os funcionários, Todos saem em um passeio de verão no ônibus da empresa que segue, advinha, para uma ponte em reformas. Aí a bagaceira começa. A seqüência em seguida, como de praxe, causa risos em todos presentes. Seja pela já citada empalação da garota no mastro, ou pelo carro esmagando a jovem na água, ou, pior, pelo asfalto quente derretendo a cara de Packer, digo, Dennis (mas é impossível não pensar em Todd Packer ao vê-lo derreter), o efeito de surpresa mesclado ao de riso é impossível de ser contido.

Sam é o tal vidente. Após perceber o vai acontecer, ele retira todos os amigos do ônibus e a tal ponte desaba. Depois da cena inicial, na qual o filme diz a que veio, tudo que já sabemos acontece (afinal, foram quatro filmes seguindo o mesmo esquema). Velório, policial investigando o tal vidente, agente funerário do primeiro filme se apresentando com sua voz de Darth Vader, conflito entre os sobreviventes para decidir quem deve viver e quem deve morrer, e claro, morte, morte e morte. Poderia fazer um top five com as melhores, mas seria estragar a surpresa de quem não viu o filme ainda. Apenas digo que minha preferida é a da ginasta. Definitivamente. 

Contando com bons efeitos sonoros que valorizam ainda mais o impacto das mortes, a direção de Steven Quale, experiente diretor de segunda unidade que, agora, encara o desafio de liderar um set, demonstra-se segura, apesar das péssimas atuações e do roteiro já manjado.  Porém, a grande surpresa fica pro final, quando percebemos o quanto a morte é, realmente, relapsa no trabalho que ela é paga pra fazer. Mas, implacável ao corrigir os erros cometidos.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pearl Jam Twenty

(EUA, 2011) Direção: Cameron Crowe.



Qual a sensação de se ouvir uma banda de rock que você realmente ama? Qual a importância de se ter um ídolo? O que aquela pessoa cuja voz te acompanha em momentos de fúria, solidão, melancolia ou alegria pode fazer por você? A voz de Eddie Vedder me acompanha em todos esses momentos faz um tempinho. Na verdade, desde o final dos anos noventa, quando um grande amigo me apresentou a ela. De lá pra cá, são muitos os momentos em que a voz desse cara comum, que evita sempre o rótulo de astro, me acompanhou. Tive o prazer de vê-lo tocar ao vivo há seis anos. Repetirei a dose em novembro. Uma experiência acachapante.  Dia 20 de setembro, apesar de em menor escala, essa experiência se repetiu. A sessão única do documentário Pearl Jam Twenty foi como uma visita a velhos amigos.

O longa dirigido por Cameron Crowe, experiente jornalista especializado em rock and roll e cineasta de obras ímpares como Jerry Maguire e Quase Famosos constrói a história de vinte anos da banda formada por Vedder, Jeff Ament, Mike McCready, Stone Gossard e Matt Cameron em um filme enxuto, repleto de imagens emblemáticas, depoimentos marcantes e músicas avassaladoras. Ver os caras comentando sua relação com a fama, fãs, dinheiro, drogas e com o amadurecimento de uma forma tão sem reservas, nos torna ainda mais próximos deles.

Crowe e Mike
O filme apresenta cenas raras, depoimentos da época, mesclando-os às imagens atuais da banda. O filme traz o Pearl Jam desde sua gênese, oriundo dos escombros do Mother Love Bone, banda onde Stone e Jeff tocavam e que acabou após o vocalista, Andy Wood, morrer de overdose em 1990. A partir de imagens de palco e depoimentos, é possível conhecer a figura carismática de Wood, cuja vontade de tocar para grandes platéias em estádios e arenas cativa justamente por já sabermos o final daquele jovem sonhador. Chris Cornell, vocalista do Soundgarden, é de uma sutileza definitiva ao dizer que “com Wood, morreu a inocência daquele período em Seatlle”.

Contando com uma montagem eficiente de Kevin Klauber e Chris Perkel (este último responsável, também, pela montagem do documentário Johnny Cash´s America), o ritmo do filme torna-se acelerado, com a inserção de imagens cobrindo a narração do próprio Crowe, como na grande sacada ao inserir fotos de vocalistas de bandas famosas quando a cidade natal de cada um deles era citada. O filme passeia pelos vinte anos da banda sem parecer episódico, sem precisar inserir para o espectador divisórias na narrativa para que seja necessário fazê-lo se localizar no tempo. Pelo contrário. Muitas vezes as imagens passeiam por períodos distintos, apenas identificáveis pela aparência dos integrantes mais velhos ou mais jovens.

Diferente do também eficiente Back and Forth, filme que contou a história do Foo Fighters, Twenty não se prendeu a uma divisão da carreira do Pearl Jam com foco exclusivo em seus álbuns. Crowe não se limitou à montagem básica de exibir a capa de cada um dos discos para, a partir daí, contar a história daquela fase. Em certos momentos, sabe-se que tal álbum está sendo citado apenas pelo fato dele aparecer nas mãos de Vedder ou Gossard, nas imagens de arquivo, algo que traz ritmo à narrativa com foco justamente no que interessa: a história como um todo e não em capítulos.

O filme ilustra cada fase dos anos 1990 de forma milimétrica. Desde o primeiro encontro entre Vedder e os futuros companheiros de palco, cuja circunstância foi devido ao envio de uma fita K7 por parte de Eddie para que Gossard e Ament pudessem avaliar; a surpresa dos outros ao perceber a voz do vocalista; os primeiros shows em inferninhos de Seattle; a ascensão gradativa à fama; a gravação de Ten, primeiro álbum; a atitude de Vedder em não querer ser entrevistado pela Time, por discordâncias políticas, mas que acabou sendo capa da revista do mesmo modo (algo que Crowe apresenta de forma inteligente ao contrastar o depoimento do vocalista ao de Bob Dylan, nos anos 1960, sobre o mesmo assunto).

Crowe e Eddie Vedder
Os pontos mais marcantes da banda são trazidos à tona. Um dos altos é a pretensa richa entre Kurt Cobain e Eddie Vedder, sendo que o primeiro é apresentado de modo agressivo, destilando ironia contra o vocalista do Pearl Jam por achar a banda comercial demais. Porém, de modo surpreendente, Crowe vai, gradativamente, exibindo as mudanças de opinião de Cobain, algo que se torna tocante em uma cena específica que não pode ser falada justamente pelo fato de que o diretor a guardou para o final do trecho em que a relação dos dois é trabalhada. Apenas adianto ter sido um dos momentos de maior impacto emocional do documentário.

Outros momentos da trajetória da banda são destrinchados, como a surpresa deles em vender mais de um milhão de cópias de Vs, segundo álbum, em uma semana e não saber ao certo como assimilar isso; a briga com a Ticketmaster pela discordância em relação ao valor dos ingressos, que a banda considerava abusivo; o encontro com ídolos como Neil Young e Peter Townshend; o processo de composição de letras tão pessoais como Alive, Black e Daughter, inicialmente chamada de Brother. Pode-se dizer que o documentário se atem, em boa parte, aos primeiros dez anos da banda.

Porém, o maior trauma que o Pearl Jam passou aconteceu nos anos 2000, quando nove fãs morreram pisoteados ao serem prensados contra a grade de proteção do palco em um show na cidade de Roskilde, na Dinamarca. A tragédia quase fez a banda terminar. As imagens da época mostram Vedder chorando no palco ao presenciar o acontecido sem poder fazer nada. Percebe-se o quão é difícil para eles falar sobre o assunto.

Curioso perceber o amadurecimento de cada um deles nesses vinte anos. O mais óbvio é o próprio Vedder, que parece ter sido afetado particularmente pelo passar do tempo. Se no começo, seu sorriso cativante estampava cada imagem sua aos vinte e poucos e seus discursos, muitas vezes, pareciam ser proferidos sem muita reflexão prévia, hoje, aos quarenta e seis, percebemos um homem pensativo, que parece medir as palavras, mas que ainda exibe aquele mesmo sorriso de duas décadas atrás.

No final, Pearl Jam Twenty acaba sendo uma ode aos fãs da banda, que se sentem privilegiados pela valorização dos seus ídolos em lutarem contra o monopólio extorsivo da venda de ingressos, em lançarem todos os seus shows em CDs “piratas oficiais” a custo de mínimo (os famosos Bootlegs) e por se manterem fiéis a uma ideologia digna onde a importância do fato de se enxergar como ídolo não se restringe a uma pose, mas, sim, a toda uma atuação social e política. Algo que a Eddie Vedder e Cia sempre tiveram.

Coisa de Cinema



Após duas semanas sensacionais em agosto, quando participei da oficina de crítica com João Carlos Sampaio e fui selecionado para compor o júri jovem do Panorama Internacional Coisa de Cinema, agora vêm os frutos : )

A partir dessa semana, comecei a publicar meus textos, também, no site www.coisadecinema.com.br, um dos espaços mais fiéis ao verdadeiro espirito da crítica cinematográfica longe do egocentrismo e vaidade que se vê em muitos ambiente virtuais por ai. O primeiro, Transeunte, de Eryk Rocha, você lê clicando aqui, ó.

sábado, 10 de setembro de 2011

Apollo 18 - A Missão Proibida

Apollo 18 (EUA, 2011) - Direção: Gonzalo López-Gallego. Com Warren Christie, Lloyd Owen e Ryan Robbins.



Desde 1999, quando A Bruxa de Blair estreou nos cinemas faturando alto nas bilheterias, várias foram as produções que abordaram a ideia de filme ficcional baseado em imagens supostamente reais, como um documentário. Apesar do estilo não soar mais como novidade, algumas obras recentes se apresentam eficazes nessa premissa, como REC, Atividade Paranormal, Cloverfield. Não é o caso deste Apolo 18, lançado em agora em 2011

O filme utiliza como pano de fundo a missão fictícia da nave título, ocorrida em 1972, quando três cosmonautas partiram em direção à lua com a missão de recolher rochas e filmar todos os minutos que passaram na órbita do asteróide. Um deles, John (Robbins), permanece na nave que orbita o satélite natural, enquanto Nate (Owen) e Ben (Christie) descem à superfície lunar em uma cápsula para fazer reconhecimento do local e recolher as amostras.

Abusando do uso de efeitos para simular as condições primárias dos equipamentos de gravação de 39 anos atrás, com imagens sem muita definição, mas com um surpreendentemente (e impossível para as condições da época) espetacular sistema de captação de áudio, o filme apresenta seu perfil documental desde o texto de apresentação, que explica que as imagens foram postadas em um site para, depois, terem sido editadas no modo como o resultado final foi exibido, até os depoimentos dos militares sobre a missão que estão prestes a cumprir. Uma forma nada elegante de pedir pageviews para o tal site, diga-se. Não citarei o site justamente por achar patética a idéia do roteiro.

Deixando de lado as dúvidas sobre a tecnologia dos equipamentos para captação de áudio, a produção tem um trabalho notável ao utilizar o som ambiente de modo a causar no espectador uma tensão crescente, uma vez que já desconfiamos que todo aquele silêncio lunar não pode representar algo positivo. Um ponto positivo nessa abordagem do silêncio como modo de causar desconforto ao espectador, é que o suspense não utiliza o clichê de substituir a ausência de som para barulhos repentinos com a intenção gratuita de assustar. Em determinada cena, os astronautas, que filmam tudo o que vêem, até brincam com isso.

Com referências diretas a Alien, o filme do espanhol Gonzalo López-Gallego (em sua primeira experiência em Hollywood – teria sido melhor esperar mais um pouco pelo roteiro ideal?) apresenta-se eficaz como suspense, construindo um ambiente claustrofóbico que durante toda a projeção vai tornando o cenário cada vez mais sufocante. E falando em Alien, é impossível não lembrar da criatura do filme de Ridley Scott ao observar como os parasitas lunares utilizam o corpo humano para se nutrirem. Prova de que o roteiro de Brian Miller não prima pela originalidade, mesmo.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Contagem

(Minas Gerais, 2010, 18`) Direção: Gabriel Martins e Maurílio Martins. 



Contagem, curta dos diretores mineiros Gabriel Martins e Maurílio Martins, aborda em sua trama um assassinato que poderia, caso Martins tivesse optado por uma narrativa linear, cair em uma mesmice que já não é novidade no cinema contemporâneo. Porém, o diretor preferiu uma narrativa fragmentada, que, utilizando o som e a montagem não-linear como fio condutor, nos apresenta a história do crime a partir do ponto de vista de quatro personagens: Ana; seu pai, um senhor de saúde frágil; Marcos, namorado de Ana; e uma conhecida desta, Rose, cuja participação no curta é a única inserção mal utilizada dentre os personagens principais (voltarei a esse ponto nas linhas abaixo).

De forma inteligente, o filme faz valer a utilização do som diegético (aquele interno, próprio do ambiente onde ocorre a ação) para gerar pontos de identificação entre o espectador e a obra. Desde um comentário trivial, feito por Marcos de dentro de um carro, passando pelo barulho da turbina de um avião, até a transmissão televisiva de um jogo de futebol, a montagem usa o som para ligar a trama de modo a tornar compreensível a ordem dos acontecimentos.

Para tanto, os diretores optam por apresentar fatos que acontecem paralelamente, como a conversa entre Rose e seu amante dentro de uma loja; a caminhada triste de Ana em direção a sua casa para cuidar de seu pai doente e o desfecho final com o assassinato citado. Dentre essas passagens, apenas a utilização do diálogo entre Ana e Rose que soou inútil, uma vez que não houve uma continuidade no tempo real da história. Prefiro acreditar que ela serviu de modo a gerar uma reflexão sobre o possível tempo perdido por Ana em tal conversa, uma vez que ele se mostrou valiosíssimo para ela alguns minutos depois quando esta se encontrava no lugar errado na hora errada.

Nas cenas externas, o curta opta pela câmera na mão, que segue as costas dos personagens de modo inquieto, tornando mais impactantes os momentos cruciais que eles estão prestes a viver. Nas internas, a câmera é sempre fixa, principalmente na sequência em que Ana cuida de seu velho pai. A sensação de desconforto ao observar a forma difícil como o idoso cumpre tarefas que seriam banais para uma pessoa saudável, como se alimentar, por exemplo, é palpável pelo modo estático como a imagem permanece inerte durante a cena.

Momento de sonho: o casal antes da decisão preciptada
De modo sutil, o diretor insere flashbacks para nos apresentar ao relacionamento entre Ana e Marcos. Sabemos, através da tristeza e do rosto preocupado de Ana ao conversar com Rose, que o namoro não passa por um bom momento. Um namoro que, no passado, vemos que era embalado por carinhos e planos do casal em viver uma vida bucólica no interior (o que, na mente limitada de Marcos, é definido por ficar “ensinando o bacuri a matar passarinho, empinar pipa e jogar bola”). Porém, a situação familiar atual dela mantém esse sonho afastado. E é esse detalhe que amarra o final da trama e nos apresenta o motivo para o acontecimento que a encerra.

Por unir de maneira primordial a técnica ao modo de se contar uma história, Contagem é um filme para ser visto com atenção. Sem citar que o título é de uma sutileza ímpar, uma vez que tanto pode significar o nome do local onde se passa a trama como, justamente, uma contagem regressiva para o que vai acontecer.      

Oma

(2011, 22´) Direção: Michael Wahrmann.

A relação entre jovens e idosos nem sempre acontece de modo natural. A obrigatoriedade que os laços familiares impõem aos netos em visitar seus avós pode ser incômoda e tornar algo que poderia ser prazeroso, um exercício de paciência. Oma, curta de Michael Wahrmann (que já havia abordado o tema em seu trabalho anterior, Avós), aborda a relação do próprio diretor com as visitas que precisou fazer à sua avó (ou Oma, em alemão, língua mãe da idosa) no último ano da vida da senhora, que já tinha mais de 90 anos na ocasião.

O tom amador do filme, que foi gravado com uma câmera semi-profissional e em preto e branco, não atrapalha a proximidade que o espectador passa a ter com aquela senhora que está convencida que não vai viver por muito mais tempo. Diariamente, ao receber a visita do seu neto, ela pergunta a ele quando será sua viagem (o rapaz estava de mudança para o Brasil) e demonstra querer aproveitar aquela presença ao máximo.

Oma é um filme que aborda essa idéia de despedida familiar de maneira delicada. Já praticamente cega, a senhora afirma não conseguir enxergar quase nada. Para ela, tudo está cinza ou preto. De forma inteligente, Wahrmann coloca o espectador no mesmo mundo em que vive Oma. As imagens abusam de uma claridade extrema que, em questão de segundos, fica escura voltando a ficar clara. É justamente dessa forma que os olhos da senhora de quase cem anos enxergam a realidade.  

Confesso que o filme gerou uma identificação em mim por conta da experiência recente que tive com o falecimento de meu pai, em julho passado. Devido a um câncer e aos nocivos efeitos da quimioterapia em seu corpo, ele se tornou senil e caquético aos 57 anos, completamente dependente de seus familiares para as tarefas mais simples do dia a dia, como levantar da cama ou ir ao banheiro. Diariamente eu o visitava imaginando se aquela seria a última vez que eu o veria por conta da evolução fatal da doença. Ao ir embora, o observava triste em sua cama, sem nem um traço do homenzarrão que costumava me jogar pra cima na infância.

E ver a cabecinha de Oma ou seus dedos longos acenando do lado fora do vidro da porta do elevador acabou por ser a cena que melhor representou aquela experiência triste de despedida. Uma despedida que, no caso da senhora, aconteceu de modo natural, uma vez que quase um centenário de vida é algo que poucos podem usufruir. Meu pai, morto antes dos 60 anos, não foi um desses felizardos.

Mens Sana in Corpore Sano

(Pernambuco, 2011, 21´) Direção: Juliano Dornelles
  


Aqui está um exemplo de filme feito de modo eficaz em todos os seus cortes e planos. Contando uma história que possui elementos do cinema trash, com alusões a diretores como George Romero e Dario Argento, o filme do diretor pernambucano Juliano Dornelles (menção honrosa no Festival Internacional de Locarno, na Suiça), impressiona pela simplicidade do roteiro e pelo modo eficaz como ele foi executado. Com cenas construídas de modo a apresentar a trama ao espectador apenas com imagens e sons, sem a necessidades de diálogos expositivos ou voz off, Mens Sana in Corpore Sano, aborda a dedicação de um fisiculturista (vivido pelo estreante Flávio Danilo) ao seu esporte até o momento em que sua sanidade é questionada.


Com paletas carregadas em cores quentes (azul e vermelho, principalmente), o curta coloca o espectador em um universo de imagens sufocantes, no qual o ambiente claustrofóbico e escuro da academia onde o personagem central malha é sempre exposto como um lugar onde apenas ao atleta cabe ficar. A sensação de sufoco para quem assiste só é sanada em breves takes, onde vemos Danilo correr em uma estrada com a bandeira do Brasil hasteada ao fundo, uma rima visual elegante que voltará a ser apresentada na cena crucial do filme.


Sendo um filme bastante sensorial, o diretor Dornelles utiliza de modo pertinente a relação entre os aparelhos da academia e o corpo musculoso do atleta. Vemos constantemente as partes móveis dos aparelhos sendo exibidas em relação aos músculos do corpo de Danilo e o suor do atleta é filmado numa relação direta ao óleo que lubrifica os equipamentos. A dedicação do marombeiro impressiona. A direção de arte, numa eficiente forma de transmitir a informação ao espectador, ilustra a casa dele com troféus, medalhas e certificados expostos nas paredes. Uma prova do quanto ele leva a sério sua profissão.
Dedicação: o atleta e suas premiações

Percebe-se uma vontade do fisiculturista de se adaptar ao mundo, como, por exemplo, ao mostrá-lo pedalando em uma bicicleta ergométrica já tarde da noite. Em um silêncio onde o barulho do pedalar e da respiração do rapaz são os únicos sons audíveis, o diretor coloca em segundo plano jovens da mesma faixa etária do atleta conversando na rua abaixo da janela, uma distração que não faz parte da rotina do dedicado halterofilista. 


E se no final do filme risos nervosos tomam conta da platéia quando a real proposta de Dornelles é apresentada, é justamente pelo fato do filme funcionar tão bem na sua idéia central. A de que a dedicação de um homem para o seu esporte precisa de um limite no qual sua mente não seja afetada de modo a permitir que sua aparência seja mais importante que seu intelecto.


E quando um cara só consegue prazer sexual com uma garota que faz flexões durante o momento de intimidade, é sinal de que algo não está tão são na mente daquele corpo insano.     

Ela Morava na Frente ao Cinema

(Pernambuco, 2011, 30´) Direção: Leonardo Lacca. Com Renata Roberta, Renata de Fátima, Olimpio Costa, Jorge Queiroz, Bruna Rafaella Ferrer.


Curta do diretor pernambucano Leonardo Lacca, Ela Morava na Frente ao Cinema aborda a relação nostálgica que a personagem principal possui com o local onde morou anteriormente (a tal referência geográfica do título). No entanto, o que leva a crer que seria uma forma poética de se abordar o tema da mudança de espaços e a relação entre admiradores do cinema, torna-se uma trama confusa que aborda temas como homossexualidade reprimida, adaptação a novas experiências de vida, sejam elas sexuais ou apenas afetivas, e aceitação de si mesmo sem aprofundar nenhuma delas.

O filmes apresenta Renata, uma garota fora dos falsos padrões de beleza da sociedade, recebendo uma fita com misteriosas imagens que, supostamente, mostram o antigo lugar onde ela vivia, uma casa que ficava em frente a um antigo cinema de Recife. Hoje, no local, funciona uma assistência técnica de aparelhos eletrônicos. Sem conseguir assistir a fita, ela leva o vídeo cassete ao lugar para um reparo.


Renata busca lembranças perdidas em sua antiga casa 

A partir daí, o filme se torna confuso, sem um foco específico em determinada trama. Ele apenas passa a ilustrar a rotina da personagem, seja mostrando-a na citada assistência, visitando os cômodos do que um dia foi seu lar (mas sem uma profundidade emocional que capture o espectador na história), ou em seu trabalho como garçonete na cafeteria local. E o roteiro que, inicialmente, sugeriu um mistério por trás da tal fita, ignora totalmente esse fato até o final da projeção.

Apesar de apresentar falhas em sua trama, Ela Morava na Frente do Cinema traz tomadas interessantes, repletas de simbolismos que, somados ao sentimento de nostalgia que a protagonista sente, justificam seu tom onírico. Por se sentir ainda ligada ao seu antigo lar e viver inerte em um mundo onde todos, exceto ela, parecem evoluir (e seu emprego como garçonete em uma cafeteria representa bem essa inércia), suas visitas frequentes à assistência mostram sua vontade de viver, novamente, em um tempo onde sua vida parecia fazer mais sentido. E o modo como o curta capta a forma lúdica como a garota parece enxergar a vida é tocante. Em uma cena que faz uma referência à Rosa Púrpura do Cairo, a vemos, praticamente, adentrar na tela do cinema numa alusão à idealização que ela busca de sua vida.

Uma vida intensa que a belíssima cena do beijo proibido no banheiro da cafeteria representa de forma ideal em sua pressa, dor e vontade de tornar aquele momento contínuo.





domingo, 21 de agosto de 2011

Uma Primavera

(Brasil, 2011, 15´) Direção: Gabriela Amaral. Com Lucia Romano e Natalia Paes Parnes.


Para quem tem filhos, não há angústia maior do que aquela representada pela possibilidade de ser privado da presença deles. Passar pelo trauma de vê-los desaparecer sem que nada possa ser feito para evitar é uma das situações de maior terror que um pai ou uma mãe pode experimentar. O curta Uma Primavera, de Gabriela Almeida, livremente adaptado de uma história de William Blake, traz, justamente, essa sensação. E o modo como a diretora consegue transmitir para o espectador a tensão da perda de uma criança impressiona justamente pela simplicidade como os elementos da trama nos são apresentados.

Lara (Natalia Paes Parnes) é uma pré-adolescente que, no seu aniversário de 13 anos, é levada a um parque por sua mãe (Lucia Romano) para um piquenique. Como toda criança que começa a perceber que está crescendo, Lara é vaidosa. Na cena inicial, vemos a menina, inexperiente nessa área, cortar a perna no banheiro, enquanto se depila. Vemos em Lara todos os sinais de uma menina que está se tornando uma adolescente que passa a negar os hábitos de sua infância. Desde a preocupação em não querer usar bermuda ao invés de saia, mesmo sabendo do desconforto de se sentar no chão, até a negação de que o rosa é sua cor preferida, Lara personifica a adolescência de forma singular, com todos os seus anseios e incômodos.

A relação da menina com sua mãe reflete bastante o cuidado da mulher para com a criança. Há um apego de Lara com ela que, mesmo com toda a suposta independência que a pré-adolescência traz, a menina não consegue deixar de transparecer. Os traços de sua ainda infância, como chamar a mãe de “mamãe”, por exemplo, ou, ainda, na conversa ao telefone com o pai, chamá-lo de “papai”, enfim, os sinais estão todos ali. Há uma sutileza no modo como essa cena é mostrada. Até aquele momento, o espectador não sabe que o casamento dos pais de Lara acabou. Enquanto a menina conversa com o pai, vemos um claro desconforto por parte da mãe ao ouvi-la aceitar um convite para jantar na noite do aniversário. É quando se nota que a relação dos progenitores não é das melhores.

Sutileza é, na realidade, o instrumento principal no contar da história de Uma Primavera. Na citada cena do corte da depilação, vemos um band-aid amarelo ser aplicado por Lara ao ferimento. Em uma elipse ao mesmo tempo sutil e eficaz, a imagem já coloca a menina no carro, junto à sua mãe, enquanto esta manobra para sair da garagem em direção ao parque. Sendo uma ótima rima visual, a cor amarela do curativo vai representar, em outro momento, a relação de cuidado da mãe para com a menina, quando as duas encontram, durante o piquenique, um pássaro (também) amarelo morto no parque. E quando a menina desaparece após um cochilo da mãe, essa relação de cuidado ganha contornos psicológicos extremos, que a diretora utiliza de forma a manipular a sensação de desconforto do público. 

A palavra manipulação aqui não possui contornos pejorativos. Pelo contrário. Almeida utiliza o silêncio, a respiração, os sons da floresta, as árvores, tudo para causar na mãe e, por conseqüência, no público, uma sensação claustrofóbica de perda. Ao acordar e perceber o celular da criança próximo ao local e sem sinal dela, a mãe vai perdendo a calma. Vemos uma expressão racional no começo passar a ser substituída por sorrisos nervosos e, finalmente, gritos de desespero. Tudo acompanhado pelo canto de pássaros, barulhos dos ventos nas folhas e o som da casca do caule de uma das árvores sendo arrancada por ela em um gesto involuntário de inércia. Algo que, diga-se de passagem, amplia ainda mais a sensação de nervosismo e claustrofobia do personagem e, claro, do espectador.

A calma dando lugar ao desespero: a mãe de Lara começa a perder a esperança
A diretora insere elementos na trama que aumentam a sensação de desespero do público com toda aquela situação. Desde a pergunta feita pela mãe a um suspeito e sinistro vigia do parque até a busca pelo nome da menina na lista de locatários de bicicletas do local, todos os sinais levam a crer que algo pode ter acontecido à garota. O sentimento sufocante é palpável.

Em uma bela cena, por exemplo, vemos, a partir de uma imagem do alto, a mãe caminhar entre troncos imensos de árvores. A sensação de isolamento e claustrofobia torna aquela paisagem bucólica insuportável. É como se toda aquela grandiosidade do local esmagasse ainda mais a esperança de que a menina poderá ser encontrada. E a atuação de Lucia Romano merece destaque pelo modo como a atriz conseguiu transmitir o desespero da busca de modo tão impactante com a perda gradativa de sua calma.

Até o seu desfecho redentor, Uma Primavera cumpre o papel de nos levar a momentos de tensão que faz com que todos os elementos vistos em cena nos façam refletir de algum modo. No clímax do curta é que se percebe a intenção do nome do filme. Em poucos minutos, a sensação de perda da mãe atrelada ao local onde ela passou por aquele terror pôde ser alongada para algo que pareceu uma longa, triste e agonizante primavera.
       


Filme exibido na Mostra Competitiva do Panorama Internacional Coisa de Cinema, Salvador, 2011.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Homem do Prego

 (The Pawnbroker, EUA, 1964) Direção: Sidney Lumet. Com Rod Steiger, Geraldine Fitzgerald, Brock Peters, Jaime Sánchez, Thelma Oliver. 


A lembrança de um sobrevivente do Holocausto o persegue e o impede do convívio social tornando-o um recluso agressivo que se esconde atrás da frieza que seu trabalho exige e do talento e tino comercial que sua origem judaica o lega. Sol Nazerman (Rod Steiger em atuação indicada ao Oscar) é o dono de uma casa de penhores em Nova York. Um lugar repleto de objetos dispensados por pessoas que vendem as próprias lembranças por meros dólares. Nazerman é totalmente imparcial com o apego sentimental que seus clientes demonstram ter pelas peças. Sejam elas troféus que um dia foram exibidos com orgulho, candelabros que devem ter ornado jantares românticos ou cortadores de grama de origem suspeita. Tudo é avaliado por ele de forma fria e calculista visando, obviamente, o seu lucro. O lugar é triste, frio e representa perfeitamente o estado de espírito de seu proprietário: um homem preso a lembranças que não consegue descartar e que se apega a elas de um modo catártico.

Em seu próprio mundo, Sol vive preso a uma inércia devido aos traumas do passado
O diretor Sidney Lumet utiliza o mínimo espaço da loja de modo a salientar o quão sufocante é aquele ambiente. Nas poucas cenas que se passam fora dalí, vemos uma Nova York violenta, suja e nada atrativa. O reflexo da cidade é encarado na população local, formada basicamente por trabalhadores imigrantes latinos, cafetões e apostadores que tentam sobreviver mais um dia naquela selva. Um deles, Jesus Ortiz tenta se endireitar numa vida honesta, longe do passado de jogatina e golpes. Trabalhando como auxiliar de Nazerman, Jesus é influenciado pela própria ganância a tentar abarcar um lucro maior do que seu trabalho pode lhe trazer. Apenas mais um que procurar sobressair-se daquele mundo.


De fato, todos os personagens são sobreviventes que tentam escapar de uma vida que os deprimem. Desde a prostituta apaixonada por Jesus, Thelma, até o cliente que insiste em manter conversas filosóficas com o proprietário. Todos se incomodam com suas rotinas, mas estão presos a uma inércia que os impede de escapar.

Os clientes de Nazerman apresentam uma característica peculiar. Cada um deles se apresenta de um modo totalmente dependente da loja de penhores. Seja para adquirir algum troco ou para em busca de alguém para conversar. E o comerciante é visto como alguém ideal na função. A solidão do homem é incômoda. E forma como ele tenta sair dela sem sucesso, desesperadora. Sem traquejo social por conta de seus traumas, ele não consegue reconhecer as oportunidades que podem recolocá-lo nos trilhos de uma vida afetiva. Em determinado momento, uma simpática mulher que aparece à loja solicitando uma doação para uma campanha de caridade, o convida para um almoço, mas no dia e local marcado, encontra um alterado e inóspito homem que a manda ficar fora da vida dele.

Sol não percebe as boas intenções de quem o cerca

O filme demonstra perfeitamente como os traumas de um passado sofrido podem transformar alguém em um ser humano amargo, mas sem consciência de que está afundando a cada dia. Metódico e fiel à sua rotina, Nazerman definha do começo ao fim da história. Curioso como vemos em sua aparência física o modo como ele é atingido por sua condição psicológica. Se no começo ele está sempre alinhado em sua postura de comerciante, ao final, após ser tragado por aquela avalanche de sentimento, sua postura e vestimenta não demonstram mais a imagem que ele pretensamente demonstrava. Naquele momento, ele está de acordo com seu estado de espírito.

Como afirma uma das rotineiras clientes do lugar, penhorar coisas é como se salvar de um barco velho e cheio de buracos. “Você penhora algo para comprar algo que depois vai penhorar também. Com o tempo, o barco afunda cada vez mais.” Ao final, percebe-se que essa metáfora se encaixava perfeitamente à vida de Sol Nazerman. 








sábado, 26 de março de 2011

U2 ao vivo em Salvador!!

U2 3D (EUA, 2007) Direção: Catherine Owens e Mark Pellington. Com Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr.


Com quase três anos de atraso (e oportunamente às vésperas da nova turnê brasileira) o filme-espetáculo U2 3D chega às telas de Salvador para sessões noturnas apenas nos dias 25, 26 e 27 de março. E valeu a pena esperar, viu! Valeu muito! Poder conferir Bono, Edge, Adam e Larry em som dolby e saindo da tela é algo desconcertante. O show, gravado em Bueno Aires em 2007 e com algumas cenas do espetáculo que aconteceu no Brasil, fez parte da turnê Vertigo, que incluiu, além dos grandes sucessos dos irlandeses, as já definitivas canções do álbum de 2004, How to Dismantle an Atomic Bomb.
O filme já começa impactante. Mostrando a corrida dos fãs argentinos no abrir dos portões do estádio do River Plate, podemos ouvir a voz de Bono e seu enigmático chamado de EVERYONE, EVERYONE quase(?) como um messias conclamando seus seguidores. E durante o show poderemos comprovar que a postura de Mr. Hewson é justamente essa. Ainda bem que são sábias as palavras que ele profere.
E o U2 poderia, realmente, ser chamado de uma religião. Ele possui todas as características convenientes. Move multidões, enche estádios, leva às lágrimas os mais afoitos e traz reflexões para os mais atentos. As letras de Bono e Cia nos trazem pensamentos contundentes sobre a verdadeira função dos ídolos na sociedade moderna. Dos Bed Peace perpetrados por John e Yoko no final da década de 1960 ao Concerto para Bangladesh de George Harrison nos anos 1970, passando pelo USA for África nos 1980, até chegarmos ao Live Eight nos anos 2000, é possível comprovar a verdadeira função política da música popular mundial (mais especificamente o Rock and Roll) na esfera social da humanidade.
E nada mais justo que a maior banda do mundo na atualidade seja a responsável pelos mais relevantes discursos pela paz mundial. Ok, antes de continuar, deixo bem claro que esse não é somente um texto de fã. Se fosse, eu deixaria isso bem claro logo de começo. Sou fã do U2, conheço o trabalho da banda, mas, independente de possíveis críticas sobre o caráter confessional deste escriba, esclareço que o que digo aqui pode ser afirmado até por aqueles que os detestam: os irlandeses representam as figuras mais significativas do Rock no cenário político mundial. Isso é um fato. Mas, continuemos.

Para quem não vai poder conferir o show da banda em abril, U2 3D é um presente. Desde o já citado começo, com a corrida dos hermanos para alcançar o melhor lugar na platéia, ao início propriamente dito do show (com o eletrizante uno, dos, três, CATORZE) de Bono, percebe-se que o trabalho dirigido por Catherine Owens e Mark Pellington (do surpreendente O Suspeito da Rua Arlington) é algo feito para colocar os espectadores dentro do estádio independente da atuação do 3D nesse intento. Mas é somente ao me incomodar com as pessoas sentadas na minha frente no cinema, que levantam os braços e começam a bater palmas, que percebo que a tecnologia da terceira dimensão faz toda a diferença nesse testemunho: eram os argentinos que estavam sacudindo os braços diante de meus olhos, e não meus conterrâneos também apreciadores do quarteto europeu.
Vertigo começa e posso dizer que a experiência de ouvi-la no sensacional sistema de som da sala de exibição é contagiante. Bono dança diante de meus olhos e o sorriso não sai de meu rosto. Estou vendo o U2 ao vivo. E sem precisar desembolsar uma fortuna. 


Seguido de Beautiful Day, do mais emocional dos álbuns da banda, All That You Can´t Leave Behind, de 2000, o show continua e percebe-se o domínio das câmeras que Owens e Pellington têm na direção. Da mesma forma que Hamish Hamilton dirigiu o DVD, lançado com o show da mesma turnê em Chicago três anos antes, a atual dupla deixa os quatro músicos à vontade no palco. Mantendo a regra já tradicional de ter uma câmera exclusiva para cada um, o editor Olivier Wicki consegue unir as imagens captadas de forma que as canções fluem de modo a levar o espectador pelas melodias e pela simpatia dos sorrisos tímidos de Adam Clayton, a concentração de Edge e Larry e, dando, claro, total liberdade para que Bono, elétrico, cative os argentinos a cada aproximação da platéia.
New Year´s Day e seu contra baixo inconfundível começa e é hora da genialidade de Adam Clayton aflorar. Com uma canção como aquela, que eles tocam há quase 30 anos em todos os shows, é que se nota a cumplicidade que cada um tem com o próprio material de composição. Adam se aproxima da platéia e é, literalmente, reverenciado pelos argentinos.


A já tradicional exibição das bandeiras de países ao som de Where the Streets Have No Name traz uma novidade: ao invés dos países africanos homenageados no show de Chicago, é a Argentina junto a todo o MERCOSUL, que estampa o palco da turnê. E, aproveitando o momento para assumir o ciúme que senti ao saber que o show 3D traria uma parte muito maior dedicado ao espetáculo gravado em Buenos Aires e não em alguma metrópole brasileira, foi maravilhoso perceber que o êxtase do público ao ouvir Bono falar “Brazil” foi muito, mas muito mesmo, maior do que o nome do país pronunciado por ele no segundo anterior. E que país era esse? Argentina, claro. Toma, Dieguito!


Piadas à parte é preciso reconhecer a energia dos nossos vizinhos durante a apresentação. E se dessa vez não houve o simbólico resgate de uma fã da platéia para servir de musa do vocalista durante With or Without You, isso não fez tanta falta assim já que a apresentação de Love and Peace or Else  foi retumbante. Com Larry tocando um simples tambor acompanhado por um prato no meio da passarela de acesso ao público, e sendo encerrada com Bono martelando o mesmo tambor segundos antes do inconfundível começo de Sunday Bloody Sunday, a seqüência representou mais um momento de protesto da banda pelas guerras religiosas travadas no mundo.
Após perder o fôlego com essa seqüência, não há tempo para pausa, pois basta Edge trocar de guitarra para Bullet in the Blue Sky começar. A eletricidade do show só é desviada para uma calmaria quando a emoção confessional de Bono é percebida na triste Sometimes You Can´t Make It on Your Own, que foi escrita em homenagem a seu pai, Bob Hewson, que faleceu em 2001. Em um interessante truque de sobreposição de imagens, vemos o cantor abraçar a imagem simbólica de seu pai, que caminha no telão atrás do palco. O mesmo pode se dizer do momento em que a imagem do telão onde se observa Bono cantando em um local distante dos companheiros de banda, é justaposta ao lado da cada um deles, criando um rima visual marcante.



A simbólica faixa de Bono, com a palavra COEXISTA escrita em caracteres símbolos das principais crenças da humanidade, nos traz a pertinência de uma banda como U2. Alguns preferem dizer que eles estão se repetindo, que desde ZOOROPA, de 1993, que não lançam nada de original. Ok, não vou chegar nesse mérito da discussão (apesar de não concordar com ele). Eu prefiro dizer que a reflexão que Bono, Edge, Adam e Larry me trazem sobre o nosso combalido planeta e seus bilhões de habitantes, merece ser levada em consideração.
E se junto com isso eu posso presenciar uma amor genuíno entre quatro amigos de longa data (observem o selinho que Bono dá em Adam durante o show), melhor ainda. Sejam bem vindos de volta ao Brasil. Vocês fazem falta!


domingo, 27 de fevereiro de 2011

Cerejeiras em Flor

Cerejeiras em Flor (Kirschblüten – Hanami, Alemanha, 2008) Direção: Doris Dörrie. Com Elmar Wepper, Hannelore Elsner, Aya Irizuki, Maximilian Brückner, Birgit Minichmayr, Felix Eitner.



Cerejeiras em Flor se apresenta como um contundente retrato do quão efêmero pode ser um relacionamento. Mesmo aqueles de longa data, nos quais óbvias almas gêmeas se vêem perdidas sem a presença do outro e os filhos já crescidos tornam perceptível a longevidade daquela relação.

Refilmagem alemã de Era uma vez em Tóquio, filme de 1953, a versão da diretora alemã Doris Dörrie conta, inicialmente, a história de Rudi e Trudi Angermeier, um casal inter-racial (ele é alemão, ela de origens orientais) pais de três filhos que, adultos, já deixaram a casa e a responsabilidade deles. Rudi (Wepper) é um funcionário obstinado do setor de reciclagem de material descartável. Obstinado no sentido de manter a própria rotina de modo linear, sem que nada possa alterá-la, ele pega o mesmo trem diariamente e come, sempre às 13 horas, o sanduíche preparado por Trudi (Elsner), que sempre acompanha uma maçã. O bordão de Rudy é “An apple a day, keeps the doctor away” (algo como “uma maçã ao dia, a visita ao médico adia”). O curioso é que não o vemos degustar a fruta em momento nenhum do filme. Trudi vive seu dia-a-dia em detrimento ao conforto do esposo. Quando jovem, se interessava por balé, mas abriu mão de suas ambições artísticas pela vida em família. É triste observar seu olhar melancólico ao ver estudantes de dança se dedicar àquela arte. 

Diagnosticado com uma doença degenerativa, Rudi tem o seu laudo médico escondido por Trudi, que não sabe como dizer ao seu marido que este morrerá em breve. Como ela mesma afirma, não há nada que ela queira presenciar sem ele. Até mesmo seu sonho de ver o Monte Fuji, no Japão, está atrelado à condição de estar junto ao seu amado. Sozinha, seria como se ela não estivesse lá. O modo como Trudi se dedica ao seu marido é tocante. Abdicando de seus sonhos pela vontade de agradar Rudi, ela se deixa convencer do argumento egoísta, mas não intencional, dele de que o Fuji é apenas mais uma montanha e que não valeria a pena dispensar todo aquele dinheiro em uma viagem ao Japão para visitar Karl, o filho que vive em Tóquio. Para o pai, seria mais barato se Karl viesse até eles. “Talvez no próximo ano, quando eu me aposentar”, afirma Rudi sobre a possibilidade ir até o Japão. As lágrimas de tristeza de Trudi molham o lenço que esta passa a ferro antes de colocar na perfeitamente arrumada bagagem de Rudi, em uma rima visual que encontrará seu par no terceiro ato, quando veremos a mala arrumada pelo próprio dono e não por sua amada.
Trudi e Rudi: amor dependente e submisso à vontade do outro

Uma viagem para Berlim, onde vivem dois dos filhos, é planejada pela esposa sem que Rudi desconfie de seu caráter de despedida. Ocupados em suas próprias vidas, os filhos Klaus e Karolin não sabem como entreter os pais na temporada que estes passam com eles e acabam por deixar transparecer aquela insatisfação. A casa onde vive Klaus, sua esposa e o casal de filhos pequenos parece receptiva, apesar de pequena, afinal, o casal de meia idade precisa ocupar o quarto dos netos. Nesta chegada a casa de Klaus, percebe-se um contraste com a residência dos seus pais. Um ambiente mais doméstico é apresentado, com mais cores e vida em relação ao lugar onde mora o casal. Um tapete vermelho chama a atenção e a imagem de crianças se divertindo com jogos eletrônicos contrasta com o silêncio da casa que vimos no começo da projeção.

O quarto das crianças merece uma atenção especial: as paredes pintadas de bege não representam a alegria que um quarto infantil deveria transmitir. De forma sutil, a direção de arte demonstra uma tentativa dos pais para captar um ambiente habitado por crianças ao pendurar desenhos feitos por elas nas paredes. Mas o verdadeiro ambiente daquele lar está ali, fixado naquele quarto. É um lugar frio e sem cor, percebido também pelo modo como as crianças recebem os avós. Não há aquela festa característica de netos ao rever aqueles que representam doces, carinhos e dengos. Há apenas um sorriso e a atenção retorna aos jogos eletrônicos. Utilizando outro modo de demonstrar o apego que qualquer avó tem para com os netos, há uma cena tocante onde vemos a garotinha massageando as costas do avô. Ao terminar, Trudi dá algumas moedas para a neta e a abraça de forma tenra. É o máximo de intimidade que ela consegue com os netos que tanto deve amar. Sobre os filhos, Trudi afirma: “Eu consigo me lembrar perfeitamente deles quando eram crianças. Agora eu já não sei quem são”. Pragmático, Rudi replica dizendo que eles estão bem. Estão com saúde. Que ela não deve esperar mais do que isso. [Um perfeito sinal da personalidade racional do marido em contraste ao emocional da esposa.]

Rudi e o filho Karl: relação interrompida pela distância 
A relação dos dois com os filhos não é muito diferente da ausência perceptível dos netos, que ainda não têm a consciência da importância daquele parentesco. Diferente dos filhos, Karolin e Klaus, que se vêem sem saber como agradá-los apenas por vaidade. Karolin pede que sua namorada, Franzi, leve sua mãe em um passeio turístico por Berlim, num ato de pura falta de compromisso. Ao se despedir dos pais, ela chora ao perceber que poderia ter feito mais, mas foi impedida por algum sentimento de negação para com as próprias raízes.

(A partir deste momento, abordarei aspectos da história que podem causar surpresa para aqueles que ainda não assistiram ao filme).

A cena em que Trudi presencia e se emociona com uma apresentação do Balé Butoh, enquanto Rudi, avesso a representações artísticas, a aguarda do lado de fora do teatro, demonstra bem a relação de ambos e a forma como os acontecimentos futuros transformará os dois de forma irremediável. A ida para o litoral do Mar Báltico, após aquela desastrosa visita aos filhos em Berlim, perece ser mais proveitosa do que o tour pela capital alemã. A tranqüilidade do mar leva Rudi e Trudi à calma que a terceira idade representa. Cativada pela beleza do balé, Trudi convida seu esposo para uma dança onde encena junto a ele os passos que o bailarino fez no tablado e o faz esquecer-se do quão ausentes seus filhos demonstraram ser. A emoção da seqüência é arrepiante. Visivelmente abalada pela possibilidade de perder o marido em breve, Trudi demonstra-se emotiva e ofegante ao beijá-lo. Em mais uma rima visual, perceberemos o significado daquela dança para a relação entre ambos em outro momento chave da película. Observando o mar, Rudi comenta que gostaria de ter suas cinzas atiradas nele quando morresse. Assustada, a esposa pergunta o que o leva a pensar isso naquele momento. E a questão nos faz lembrar a real intenção daquela viagem.  

Cumplicidade: Trudi divide seu calor com o marido
Talvez por já estarmos nos acostumando àquela paz que a relação do dois emana, sintamos um choque ao perceber a morte de Trudi e o grito de dor do seu marido ao acordar e perceber que a esposa partiu enquanto dormia. Na última tarde juntos, eles voltaram a conversar sobre a relação com os filhos e, em uma referência que saberemos em breve sobre o balé Butoh, a diretora Dörrie filma as sombras dos dois na areia da praia. Em um gesto de puro afeto, Trudi divide o calor de seu agasalho da forma que pode, para mantê-lo também aquecido. E, como numa despedida, dança os passos do Butoh com um desengonçado Rudi.

A dor da perda é representada de modo sutil pelo filme. Apesar de obviamente abalado pela morte de sua esposa, Rudi demonstra sua tristeza de forma calma, sem desespero. Um retrato do modo como sua relação com Trudi foi calcada. É perceptível a desesperança que o homem sente ao saber que nunca vai poder demonstrar o amor que sentia pela mulher com quem compartilhou uma vida. A atuação de Elmar Wepper é magnífica. No seu olhar, nota-se uma incógnita sobre como serão os seus dias daqui pra frente. Ele observa o mar sem ondas, tão incomum, que reflete justamente o modo pacifico como Trudi morreu. À mesa com os filhos, observamos quadros com mares revoltos que fazem referência justamente ao ambiente desconfortável onde os órfãos agora se reúnem para honrar a morte da mãe.

A exuberância do Fuji e as cerejeiras em flor
Sem a presença da esposa, Rudi perde o próprio rumo. Solitário em seu próprio lar, passa por constrangimento pela ausência dos filhos à cerimônia e se vê perguntando pela esposa para as paredes da casa onde dorme ao lado do vestido da falecida.  Decidido a viver sozinho os sonhos de viagem que ela teve, segue para o Japão no intuito de contemplar o tão sonhado Monte Fuji e as cerejeiras em flor que a estação do ano propicia.

A partir deste ponto, o filme remete em certo ponto a Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Em uma cidade onde nenhuma palavra ou direção parece indicar Rudi o caminho a seguir, a displicência do filho Karl a, também, não dar a atenção que o pai merece como hospede, leva-o a vagar por uma Tóquio caótica. De forma elegante, sem nos fazer esquecer a carga de tristeza que aquele drama traz, o roteiro insere algumas cenas onde percebe-se como pode haver graça na situação do protagonista ao em Tóquio. Em um momento ele experimenta usar uma placa pendurada ao peito com as indicações de quem ele é e como pode-se contatar alguém responsável por ele; em outro, é abordado por um jovem local que oferece “abraços de graça”.

Rudi e suas instruções de identificação
Metódico como sempre, Rudi aplica seus conceitos de trabalho na casa do filho, ao separar o lixo para reciclagem e ao amarrar um lenço em um ponto comum da metrópole com a intenção de poder achar a rota de volta para o apartamento. Em seus passeios e caminhos perdidos pela cidade e por entre as cerejeiras em flor, ele conhece Yu (Irizuki)), uma dançarina do balé Butoh que se apresenta ao ar livre. Ela lhe explica os significados da dança e lhe traz novos conceitos sobre aquilo que Trudi sempre tentou fazê-lo crer a respeito da arte. Mas a tristeza pela morte dela ainda pesa em sua mente. Tanto que ele usa as roupas que pertenceram a ela nos locais que visita, na ilusão de que Trudi também possa apreciar a viagem que sempre sonhara.

A relação entre Rudi e Yu se estreita. Uma genuína amizade que somente pessoas que passaram por dores semelhantes surge. Ela, mesmo já tendo superado, diz que dança para a mãe que perdeu. Ela baila enquanto segura um telefone numa clara referencia à forma de comunicação que a arte pode apresentar entre os homens. Ele simboliza justamente essa comunicação que a jovem nunca teve com a mãe e isso, claro, cria uma paridade com a relação entre o viúvo e sua amada. “Minha mulher sempre foi como uma fera presa em uma gaiola”, afirma Rudi. “A minha mãe era como um pato a mergulhar no rio em seus altos e baixos. Uma hora triste, outra hora feliz”, replica Yu. Nada mais contundente.

Yu: sabedoria e orientação para um viúvo perdido
Nas visitas diárias aos locais onde Yu se apresenta, uma cumplicidade cada vez maior se cria entre o senhor e a jovem. Ela lhe explica os conceitos do Butoh e sua relação como as sombras, as mesmas sobre as quais tivemos um vislumbre no começo do filme. Mesmo conversando em inglês, a japonesa e o alemão têm certa dificuldade para expressar certos pensamentos. Mas a simplicidade que a empatia entre os dois emana é suficiente para que, através de simbolismos, seja possível compreender cada idéia. Como, por exemplo, no momento em que ela compara a relação entre Rudi e sua esposa com a refeição feita com repolho e ilustra o que quer dizer se enrolando no plástico onde está sentada.

Yu ensina a Rudi o balé das sombras

Apesar da saúde deteriorada, o que percebemos nas recorrentes cenas onde vemos Rudi tomando seus remédios, ele se esforça em ir ao sonhado Fuji. E não é de se surpreender que Yu o acompanhe na viagem. A vista da montanha é embriagante. Após dias de espera para que a nevoa que cobre o monte se dissipe, numa referencia perfeita feita por Yu a uma possível timidez do monumento natural, Rudi pôde vislumbrar toda a beleza que Trudi sonhou em contemplar. Em uma cena coreografada de forma emocionante, percebemos que o amargurado senhor pôde finalmente alcançar a paz ao apresentar o local a sua querida mulher. Sim, ela se faz presente àquele momento. Seu balé se fez presente do mesmo modo. E mesmo que os três filhos, tão atarefados com os próprios umbigos, não percebam como fizeram falta para os pais e custem a entender as circunstancias de tudo aquilo que seu velho viveu, para Rudi não faz mais diferença. A pessoa que ele tanto amou voltou para seus braços. E, nesse intento, ele encontrou em uma estranha a figura de uma filha que nenhum dos três consangüíneos conseguiu cumprir.
     Sim, triste. Mas, ao mesmo tempo, maravilhoso..