sábado, 5 de maio de 2012

O Homem que não dormia

(Brasil, 2011) Direção: Edgar Navarro. Com Bertrand Duarte, Evelin Buchegger, Mariana Freire, Fábio Vidal, Luis Paulino, Edgar Navarro, Ramon Vane, Fernando Neves. 


O Homem que não dormia, novo filme de Edgar Navarro, apresenta um choque cultural arrebatador através de uma história bem construída que envolve reencarnações, conflitos psicológicos e a já combalida questão da fé do homem em algo que, supostamente, poderá esclarecer seus caminhos. Seja essa fé uma questão religiosa, folclórica ou puramente carnal no que se refere ao sexo.

Passado na Chapada Diamantina, o filme utiliza muito bem a beleza do lugar para ilustrar tanto os mistérios soturnos da trama quanto as passagens de contemplação, muitas delas ilustradas pelo personagem andarilho que acabará servindo como uma das pontas do arco central, composto por quatro outros personagens.

Dona Brígida (vivida por Evelin Buchegger) é uma mulher sem pudores, mal vista pelos habitantes do povoado devido a seus casos fora do casamento. Esposa do violento Coronel Abílio (Fernando Neves), Brígida parece viver em busca de uma resposta para seus conflitos, mesmo sem conseguir entender quais seriam esses. Compõem as outras pontas dessa história, Vado (Fábio Vidal), um deficiente mental atormentado pelas surras que leva do pai devido à sua demência; Madalena (Mariana Freire), outra mulher libertária para os costumes do lugar no que se refere ao sexo; e o padre Lucas (Bertrand Duarte), o mais complexo de todos justamente por possuir o posto de pretenso detentor do conhecimento e possibilidade de aconselhamentos. Em comum, todos eles possuem um rotineiro sonho envolvendo um crime ocorrido décadas antes e que poderá lhes trazer as respostas para seus conflitos psicológicos.  

Padre Lucas e os tormentos que o impedem de ajudar seus seguidores
O conflito de fé de padre Lucas é, sem dúvida, o melhor ponto da trama. O momento em que o vemos, dentro de um confessionário, ouvindo um dos seus fieis enquanto parece se contorcer de dor, demonstra bem a relação deste com suas obrigações católicas. Logo em seguida, lá está o padre se consultando com uma mãe de santo do candomblé. Uma das cenas mais emblemáticas do longa, que, a propósito, é repleta delas. O Homem que não dormia, em suas discussões de fé, acaba servindo como um excelente estudo da relação do ser humano com o que ele desconhece e teme. Seja através das cenas onde os velhos do lugarejo contam os causos sobre as lendas do lobisomem, da mula-sem-cabeça e do caipora, ou a partir do modo como os personagens utilizam o sexo como um escapismo, uma outra forma de encarar o vazio de suas rotinas.

Para isso, a nudez é explorada por Navarro sem reservas, colocando seus atores em um modo de interpretação fora dos ditos padrões de pudor que se vê em diversas produções nacionais. Quando vemos a dona Brígida tomando banho, não é somente terra que ela tira do seu púbis, seios e curvas. O que ela parece tirar de si é todo o seu trauma de mulher subjugada por um marido tirano. Há, claro, certo estranhamento por parte da plateia ao se deparar com pênis e vaginas em diversos planos detalhes. Óbvio que os pretensamente chocados esquecem que não há olhares reprovadores ao ver membros dilacerados ou corpos alvejados em outros filmes. Mas basta aparecer um genital em uma obra, para que todo seu conteúdo seja condenado.

O trágico e lúcido Pafrente Brasil
No aspecto citado anteriormente, o de que o sexo é visto pelos seus personagens como uma forma de fuga das suas vidinhas medíocres e as atitudes obcenas são pretensamente encaradas como um modo de rebeldia dentro da inércia daquela rotina, O Homem que não dormia apresenta exemplos fascinantes. Um deste é o do personagem Pereba, que vive para maldizer as pessoas que passam em frente ao boteco onde ele permanece durante todo o dia e para defender suas ideias machistas e sexistas de rebaixamento das mulheres. Ao perceber-se confrontado por uma opinião centrada no romantismo de encontrar um amor na vida, ele replica de modo mesquinho, mas percebe-se certo incômodo ao ouvir seu apelido ser dito com a excrescência que ele representa.

Outro desses personagens fascinantes que habitam aquele universo de Edgar Navarro, é a figura atormentada de Prafrente Brasil, um ex-combatente torturado pelos militares na ditadura e que, desde a década de 70, vive renegando qualquer tipo de ufanismo. São dele as melhores falas do filme, principalmente o belo diálogo travado com o andarilho, quando nota-se que a fachada de maltrapilho esconde uma visão impar do mundo e da humanidade.
Pe. Lucas: entregar-se ao desespero como forma de se salvar
Ao final, quando alguns dos conflitos de fé e tentação são resolvidos, o filme se encerra de modo lúdico e mágico, deixando a percepção que o projeto assumiu sua ideia de que é através da loucura que o homem pode ser salvo de sua própria falsa sanidade. Afinal, foi somente ao vê-se perdido e louco que o padre Lucas pôde ascender (literalmente) ao conhecimento. Fugindo de suas amarras mundanas, o atormentado católico conseguiu alcançar o equilíbrio que buscava.

A frase final “ao persistir os sintomas, um médico deverá ser consultado” soa como piada, mas define bem a intenção do filme em abraçar a loucura de modo consciente. 

4 comentários:

  1. Muito interessante sua interpretação de 'O homem que não dormia'.

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  2. João, ontem revi o filme com alguns amigos que ainda não o tinham assistido. Pude perceber de modo distanciado o quanto esta obra de Navarro é completa e contundente no que pretende expressar. E o seu texto me causou uma lucidez quanto ao que sinto como espectador e admirador da obra de Navarro, independente de ser um de seus atores e cúmplice de sua fértil imaginação. Parabéns!

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    1. Bertrand, ao sair do cinema, um dos sentimentos que tive foi o de, justamente, ter sido tocado por essa lucidez que você citou em seu comentário. Em uma obra de tamanho peso e cunho psicológico, perceber-se envolvido pelo entendimento pleno das intenções do realizador é por demais gratificante. E se com esse entendimento vier acompanhado um filme de tamanho impacto quanto esse último de Navarro, melhor ainda. Obrigado pelo reconhecimento. Um abraço.

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