sábado, 5 de abril de 2014

10 anos de um Brilho Eterno



Por João Paulo Barreto

A dor da perda é o que move Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Mas não aquela perda saudosa, que te faz olhar para seu passado com ar de nostalgia ao imaginar o quanto sua vida era diferente do que é agora. A perda representada por Michel Gondry e Charlie Kaufman em seu trabalho mais primoroso, é aquela que goteja pelo ralo do dia a dia de uma relação esgotada. É aquele tipo de perda que se percebe esvair, mas cuja inércia do comodismo ou medo da quebra radical de uma frágil estrutura te faz recuar e observar de longe aquela relação se esgotar. É como uma inconsciente autoflagelação. Prefere-se destruir aos poucos a estrutura do que derrubá-la de modo, apesar de doloroso, fugaz.

Joel e Clementine já passaram por todos os estágios dessa perda em seu relacionamento. Cinismo, desencanto, rotina insuportável, tristeza e, finalmente, desrespeito mútuo. No seu limite, o esquecimento não parece mais uma possibilidade utópica, mas, concreta. E Clementine opta por esse processo. O que se segue é pura mágica cinematográfica. Através da lente de Gondry, o que vemos é um mergulhar nas emoções e memórias mais felizes de um ser humano. Felizes, no entanto, é um termo por demais abrangedor. As tristezas e decepções também vêm à tona, mas o que há nas lembranças que Joel decide apagar por despeito é um sentimento de posse irrecuperável. A dor lhe escapa entre os dedos, e a qualquer gota de lembrança a escorrer, mesmo que dolorosa de se sentir, ele se agarra em desespero.

Joel avista Clementine em seu momento de déjà vu
                                   
Com essa tentativa estoica de se conservar qualquer vestígio daquele sentimento durante o processo de esquecimento, Gondry desenha um mosaico de representações. Um modo de ilustrar cada fase daquele despertar amnésico e todas as barreiras que Joel teve que enfrentar. O mais fascinante de todos é, definitivamente, quando vemos a casa de praia onde o casal teve sua primeira conversa intima desabar por conta de uma invasão da maré. O turbilhão de ondas varre aquele sentimento, destrói seus alicerces e a metáfora daquele oceano levando embora as memórias é de uma sutileza das mais eficientes em toda a obra.

Brilho Eterno trouxe um fôlego de originalidade ao cinema em 2004. Nele, Jim Carrey pôde, mais uma vez, comprovar seu subestimado talento como ator dramático. Há uma dupla de idiotas nonsenses (Mark Ruffalo e Elijah Wood) e mais tristeza afetiva no arco envolvendo Kirsten Dunst e Tom Wilkinson. E, obviamente, há Kate Winslet em toda sua beleza madura, desespero latente e, claro, madeixas coloridas. Em um projeto cuja dupla de criadores surpreende em um acesso de criatividade desorientador, o grupo de atores a refletir tais ideias faz jus ao tesouro que sabem possuir em mãos. É uma das poucas vezes em que uma equipe criativa encontra a precisa representação de sua obra.

             Clem: "No jokes about my name"                
Há dez anos, eu me recordo de ter saído da Sala de Arte Cinema do Museu, em Salvador, um tanto anestesiado. A mente estava lenta. O processamento de tudo aquilo que acabara de ver ainda não funcionava de uma forma que me permitisse absorver aquele longa da forma como ele merecia. Para quem mora ou conhece Salvador, sabe a distância entre este cinema e a estação da Lapa. O caminho é longo e não é dos mais agradáveis de se fazer após as 22h. Naquele dia lá em 2004, eu o fiz. Precisava caminhar para tentar e refletir sobre aquela obra. Fazia tempo que algo tão original não me cativava daquela forma no cinema.

A percepção era clara: Michel Gondry e Charlie Kaufman (e Pierre Bismuth, co-autor da história) construíram uma obra cuja originalidade te faz acreditar que ainda há esperança no amor. Mútuo e pelo cinema.