quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Cineclube Glauber Rocha - Era uma vez no Oeste


Fotos do evento: Lara Carvalho

Falar em público é complicado. Falar em público sobre um gênero tão rico quanto o Western é ainda mais complicado. Agora, imagina falar em público sobre Sergio Leone e sua obra máxima, Era uma vez no Oeste. A noite de 26 de agosto, no Itaú Glauber Rocha, teve momentos de pura imersão cinematográfica, encantamento diante de tamanha perfeição de um filme e, digamos, momentâneo pânico pelo fato de precisar exprimir ideias acerca de um artista que tanto admiro quanto Sergio Leone em frente a uma platéia atenta. Mas, nada que não passasse em poucos minutos após o debate engrenar da forma como ele foi planejado.


Público presente para o debate pós filme
A proposta sensacional do Cineclube Glauber Rocha de reunir um público apaixonado por cinema, uma obra marcante em condições fantásticas de áudio e imagem, e alguém para conduzir o encadeamento de ideias sobre aquele trabalho, já se consolida nesta sexta sessão. Com o formato planejado pelas produtoras Tais Bichara e Lara Carvalho, e pelos curadores Cláudio Marques e Marília Hughes, e que remete ao Cineclube original da década de 1950 que o então Cine Guarani possuía sob a batuta do crítico Walter da Silveira, o nosso atual Cineclube é o que de melhor se encontra no leque de opções cinéfilas de Salvador.

Breve nervosismo diante de um tema tão grandiosos quanto Sergio Leone

Pouco antes do papo pós filme começar, lembrei que, coincidentemente, exatos quatro meses antes eu havia conversado pela última vez com João Carlos Sampaio. O papo aconteceu ali mesmo, no Espaço Itaú Glauber Rocha. Papeamos sobre diversos assuntos e, claro, sobre o cineclube, que começaria na semana seguinte com a exibição de Laranja Mecânica, do Kubrick, e debate mediado pelo próprio João. Eu, já um tanto ansioso pela ocasião de me postar em frente à plateia, perguntei a JC como ele, que já tinha tantos anos de prática, fazia. A resposta não poderia ter sido melhor ou mais de acordo com a personalidade adorável de Janjão: “Eu sei lá, nego. Apenas chego lá na frente e falo”, ele disse, com aquele sorriso de canto de boca que lhe era tão característico. Eu apenas sorri e entendi o recado. Bastava manter a calma (difícil) e expressar as impressões sobre a obra. Disse a João que o projeto era foda. Sensacional, mesmo. Ele concordou e falou algo ainda mais de acordo com seu senso de humor único: “pois é, nego. A ideia é muito boa, mesmo. Reunir um público antenado e chamar gente com carisma, cinesmática e bacana para explanar sobre os filmes exibidos é algo sensacional. Pena que não acharam ninguém e tiveram que chamar você, eu, Rafael Saraiva, Rafael Carvalho...”. Esse era o João que eu tanto admirava. E foi legal ter pensado nele no momento em que eu me postei lá na frente.

Harmônica e Cheyenne: vingança soturna e carisma irônico
A exibição de Era uma vez no Oeste foi como um retorno pra casa. Já é clichê dizer que é no cinema que obras como essa devem ser testemunhadas. Mas são poucas as que seguem tão à risca esse condicionamento. As marcas do modo Sergio Leone de se fazer cinema estão incrivelmente evidentes neste filme. E vê-las naquela tela gigante da Sala 1 do Espaço Itaú Glauber Rocha nos traz a percepção completa deste modo obrigatório de testemunho. As panorâmicas do Monuent Valley mostrando as intenções de Leone em prestar, com seu filme, um tributo a mestres anteriores como John Ford e Howard Hawks; os supercloses sinônimos de seu nome como cineasta; as marcas pesadas nos rostos de Charles Bronson, Henry Fonda e Jason Robbards denotando justamente a história de vida marcada pela violência daqueles personagens. Claro, há, também, a beleza estonteante de Claudia Cardinale, que parece nunca ter estado tão linda quanto neste filme. E, obviamente, os quatro temas musicais criados por Enio Morricone, um para cada protagonista, conseguem oscilar de forma sublime entre a emoção de Jill, a ex-prostituta vivida por Cardinale; a tensão que a vingança perpetrada por Harmônica (o matador vivido por Bronson); o terror da presença de Frank, o assassino encarnado por Fonda, e o toque de comédia que Cheyenne (Robards) traz em seu personagem. As músicas são orgânicas e criam uma identificação com cada um deles, destacando cada tema.

Estonteante: Claudia Cardinale nunca esteve tão linda
Não bastando somente os temas musicais, Morricone traz em seu trabalho um desenho de som inspirador, que valoriza este elemento de modo primordial, criando sequências como a de abertura, quando quase treze minutos de filme são preenchidos somente com sons diegéticos oriundos apenas dos elementos materiais em cena. Há outros momentos, como quando conhecemos Cheyenne quando este adentra na taverna após escapar de uma escolta policial ou quando as cigarras da fazenda McBain param de cantar prevendo a morte que se aproxima que nos faz perceber esse cuidado com o uso do som no filme como motivo de regozijo. Além disso, há os raccords sonoros encantadores, como quando há uma união entre o som do tiro que mata o pequeno Timmy com a chegada do trem de Jill; ou o trem de Morton com o serrote na construção da ferrovia. São pequenos detalhes que nos faz perceber o apuro e cuidado de um mestre na criação de sua obra. É notória uma frase de Leone que dizia que 40% de um filme é música. No entanto, nos outros 60%, ele também não decepcionava.

No caráter imagético, ele tinha uma habilidade incrível de equilibrar cenas panorâmicas de paisagens com os rostos marcantes dos personagens. Esses rostos, marcados pelo sol forte e pela passagem do tempo, acabam servindo de peças na construção visual do filme. O equilíbrio dos dois elementos encontrado aqui é visto em cada uma de suas composições cênicas. São detalhes que abordam a aridez daquele universo e o seu reflexo físico nos personagens.

Henry Fonda perde sua face de mocinho na pele do matador Frank
A orquestração da obra de Sergio Leone, com seus personagens em passos lentos, caminhando em direção à morte, quase que dançando com ela ao som da música de Enio Morricone, é outro ponto que chama a atenção. Sua mise en scene é perfeita. Há momentos como aquele quando a câmera sobe por sobre a estação de trem em uma panorâmica da cidade de Flagstone em que, com o crescente musical do momento e a apresentação daquele ambiente, fica difícil não perder o fôlego tamanha precisão dos movimentos. 

Creio que a sessão de 26 de agosto foi a que mais fez jus à proposta de exibir clássicos na tela do Cineclube Glauber Rocha. A grandiosidade da obra prima de Sergio Leone pedia por isso.

Mais uma vez, meu muito obrigado a Tais, Lara, Cláudio e Marília por esse presente e pelo convite para fazer parte disso. 





segunda-feira, 18 de agosto de 2014

The Rover - A Caçada

(The Rover, Austrália, 2014) Direção: David Michôd. Com Guy Pearce, Robert Pattinson, Scott McNairy.



Por João Paulo Barreto

Diferente da ambientação urbana de seu longa anterior, o premiado Reino Animal, de 2010, o diretor David Michôd trouxe para The Rover um teor pós apocalíptico característico do outback australiano, local que parece sempre repleto de desespero e terror latentes oriundos de personagens psicopatas.

Aqui, a coisa não é muito diferente. No tal futuro pós-apocalíptico que o letreiro inicial informa se passar 10 anos depois de um colapso da sociedade (colapso esse que parece ser econômico, e não causado por algum agente biológico ou coisa do tipo), Eric, um maltrapilho homem com aparência de poucos amigos, tem seu carro roubado por supostos assassinos que abandonam o próprio veículo após um acidente.  Começa, então, a busca pelos ladrões e pelo seu carro, que parece ser seu último bem material.

Funcionando como um road movie suicida, The Rover traz Guy Pierce como um protagonista no limite emocional que o faz não pensar duas vezes antes de executar a sangue frio um traficante de armas que não aceita negociar preços ou encarar um revolver apontado para sua testa com a mesma coragem de quem encara uma briga justa. É o tipo de personagem perdido, sem esperanças de redenção, mas com um único norte como meta, algo que leva o espectador a torcer por ele mesmo sem conhecer nenhum traço de seu passado brutal.

Eric: atitudes suicidas de quem nada tem a perder
Na busca pelos ladrões de seu carro, topa com o irmão deficiente mental de um deles. À beira da morte, o rapaz pede ajuda e acaba servindo de guia para Eric seguir os rastros dos bandidos. A relação que se desenvolve entre ambos torna-se a tona do filme. Robert Pattinson, no papel do jovem assassino Rey, volta a confirmar que há vida pós Crepúsculo e apresenta uma atuação complexa, repleta de tiques nervosos, com um pesado sotaque australiano e sem vaidades na entrega.

A história da relação da amizade baseada na sobrevivência dos dois protagonistas, apesar de se valer de certas conveniências do roteiro para seguir em frente, é o que torna intrigante a história escrita pelo ator Joel Edgerton (Guerreiro) e pelo próprio diretor. Enxergando na imagem do homem mais velho uma autoridade paterna, a personalidade manipulável de Rey torna-se evidente e passamos a vê-lo como uma vitima dos homens que agora persegue.

Rey: confusão mental, carência afetiva e instinto assassino
Na construção de seu personagem, Pattinson, em trajes sujos, olhares desencontrados e repletos de confusão, esconde uma profundidade palpável. O choque entre a dureza de Eric e o pedido involuntário por socorro de Rey é perceptível quando este o questiona sobre o fato dele não conseguir parar de pensar em uma de suas vítimas. “É o preço a se pagar por ter tirado uma vida. Você tem que carregá-la consigo para sempre”, é a resposta de Eric, que define a personalidade e entrega parte do passado daquele homem.  

Um dos pontos de acerto da produção está na escolha de elenco, com a inserção de atores direcionados a personagens cujas aparências incomuns e estranhas refletem o ambiente inóspito onde vivem. Os rostos marcantes acabam por se tornar peças na construção visual do filme. Não somente em suas aparências físicas, com queimaduras oriundas do sol escaldante e aspereza visual denotando bem o universo onde vivem, mas suas atitudes refletem um desenho daquele mundo destruído social e economicamente.

Em certo momento, vemos um comerciante condicionar uma informação à compra de qualquer mercadoria de sua loja caótica. Ao parar em um posto de gasolina, Eric argumenta com o vendedor que só tem dólares australianos e este, de modo agressivo, replica dizendo que apenas americanos são aceitos. Pelo visto, a economia estadunidense se manteve dominadora naquele caos. Uma mensagem subliminar para quem seria o maior beneficiado em uma situação social como aquela? Divago.

[ATENÇÃO, SPOILER] Na aparente irracional busca pelo seu carro, Eric apresenta uma motivação apenas revelada na última cena do filme e que, infelizmente, acaba por não conseguir trazer o impacto desejado pelo diretor ao inseri-la. Quando o vemos retirar um animal morto do porta-malas (algo que, aparentemente, pretende enterrar de forma digna), obviamente temos um vislumbre da complexidade daquele personagem, que descarta vidas humanas de forma tão banal, mas se importa em dar a um animal uma simbólica e apropriada despedida.

No entanto, não deixo de imaginar como seria o impacto do roteiro se o visemos retirar do porta-malas o corpo da esposa, que ele admitiu ter assassinado por conta de uma traição.





sábado, 16 de agosto de 2014

Oficina “A mutação histórica do cinema – em película, eletrônico e digital”


Como parte das atividades relacionadas ao Cineclube Glauber Rocha, será realizada na Sala Walter da Silveira uma oficina gratuita com o professor, curador e restaurador Hernani Heffner. Além da oficina, obras clássicas em película serão exibidas.Confira abaixo as informações pela produção do Cineclube através de release.



A Oficina “A mutação histórica do cinema – em película, eletrônico e digital” é uma realização do Cineclube Glauber Rocha em parceria com a Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

As aulas acontecerão na Sala Walter da Silveira, das 13h às 17h, entre os dias 15 e 18 de setembro e serão ministradas pelo professor, curador e restaurador Hernani Heffner (foto abaixo). O curso é gratuito e as inscrições devem ser feitas até o dia 05 de Setembro no link: http://cineclubegr.com/oficina/inscreva-se/


EMENTA DA OFICINA


O curso apresentará um breve panorama das principais fases, escolas, movimentos e personalidades dos pouco mais de 120 anos de história do cinema, forma de expressão artística, documental, jornalística e experimental que assumiu um papel central na cultura audiovisual do século XX.


Em um paralelo com diferentes proposições de verdade científica, a criação cinematográfica será analisada a partir de noções como causalidade/cinema clássico (paradigma newtoniano), relatividade/cinema moderno (paradigma einsteiniano), incerteza/cinema maneirista (paradigma heisenberguiano) e caos/cinema contemporâneo (paradigma mandelbrotiano).

O curso apresentará trechos de filmes e terá uma mostra de obras consagradas a ser apresentada na Sala Walter da Silveira.

SOBRE O MINISTRANTE


Foto: Leo Fontes

Hernani Heffner é graduado em Comunicação Social – Habilitação Cinema pela Universidade Federal Fluminense. Entrou como pesquisador contratado para a Cinédia Estúdios em 1986, passando 13 anos na companhia, primeiro como pesquisador e depois como responsável pelo acervo de filmes. A partir de 1996 assumiu o trabalho de restauração dos principais títulos da companhia, como “O Ébrio”, “Alô, Alô, Carnaval” e “Berlim na Batucada”. No mesmo ano passou a trabalhar como Curador de Documentação e Pesquisa da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, transferindo-se três mais tarde para o Arquivo de Filmes da instituição, onde atua até a atualidade como Conservador-Chefe.

A partir de 2000 passou a atuar como professor de História do Cinema e de Preservação de Filmes, tendo passado pelas seguintes instituições de ensino: Universidade Federal Fluminense, Estácio de Sá, Cândido Mendes, Fundação Getúlio Vargas, CineTV-Paraná e Usina João Donato. Desde 2005 dá aulas no curso de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É autor de inúmeros artigos para revistas, catálogos e livros, além de mais de cem verbetes da Enciclopédia do Cinema Brasileiro (Editora Senac, várias edições). Participou de dezenas de debates, oficinas, cursos livres. Foi curador das Mostras Raízes do Século XXI, Miragens do Sertão, A Tela Aberta e Cinédia 75 Anos, realizadas na Caixa Cultural e no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. É curador dos Festivais Cine Música e Mostra de Cinema de Ouro Preto – CineOP – Temática Preservação.

Professor: Hernani Heffner (RJ)
Carga horária: 16 horas*
Data: 15 a 18 de setembro
Horário: 13 às 17h
Local: Sala Walter da Silveira, Biblioteca Pública do Estado da Bahia
Inscrições: até 05 de Setembro
*Terá direito a certificado o participante que cumprir 100% da carga horária do curso.


MOSTRA "CINEMA - OBRAS FUNDAMENTAIS"


A Mostra “Cinema – Obras Fundamentais” é uma realização do Cineclube Glauber Rocha em parceria com a Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia, com o apoio da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e da Cinemateca da Embaixada da França no Brasil.

A curadoria da Mostra foi feita por Hernani Heffner, e as sessões estão associadas à Oficina “A mutação histórica do cinema – em película, eletrônico, digital”, ministrada por Heffner no mesmo período também na Sala Walter da Silveira.

PROGRAMAÇÃO

Segunda-feira, 15/09, às 17h

                                        

“A Mãe”, de Vsevolod Pudovkin

Ficção, 89’, URSS, 1926, 35mm

Adaptado do romance de Maxim Gorky, o filme narra a história de Niovna-Vlasova, esposa de um ferreiro alcóolotra morto acidentalmente por um militante, amigo de seu filho e a sua participação na investigação polical da morte de seu marido.

Segunda-feira, 15/09, às 19h

                                            

“Aurora”, de Friedrich Murnau

Ficção, 94’, EUA, 1927, 16mm

Um homem está passando por uma crise conjugal e com a sua fazenda, enquanto sua mulher sofre silenciosamente com a infidelidade de seu marido enquanto cuida de seu filho. Entretanto, quando o homem começa a se relacionar com uma mulher da cidade, ela tenta convencê-lo a matar a sua esposa.

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Terça-feira, 16/09, às 17h


“Othello”, de Orson Welles
Ficção, 90’, EUA, 1952, 35mm

Baseado na peça homônima de William Shakespeare, o filme segue Othello, que se casa com a linda Desdemona, mas, influenciado pelo malvado Iago, logo começa a duvidar da fidelidade de sua esposa.

Terça-feira, 16/09, às 19h



“A Regra do Jogo”, de Jean Renoir
Ficção, 110’, França, 1939, 35mm

Em uma adaptação da comédia de Alfred de Musset, “Les Caprices de Marianne”, um baile de máscaras que acontece na casa de campo da alta burguesia francesa é o palco para o desenvolvimento de diversos romances amorosos tanto na alta burguesia como nos empregados da mesma.

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Quarta-feira, 17/09, às 17h

                             
             

“Os Boas Vidas”, de Frederico Fellini.
Ficção, 104' , Itália, 1953, 35mm

Numa pequena cidade da Itália, cinco jovens amigos são típicos “vitelloni” (inúteis) e vivem uma vida boêmia cheia de bebidas e mulheres. Sem perspectivas de vida, cada um encontra um modo de escapar da monotonia da vida provinciana tentando aproveitar e curtir as aventuras que esse mundo os reserva.

Quarta-feira, 17/09, às 19h

                                             
 


“A Guerra Acabou”,de Alain Resnais 
Ficção, 121’, França, 1966, 35mm

O líder do Partido Comunista espanhol Diego está voltando para Paris, a cidade onde mora, de uma missão em Madri. Após ser preso na fronteira por usar um passaporte pertencente a outra pessoa e conseguir ser liberado, ele procura por um de seus colegas, Juan, para impedir a sua ida à Madri, onde ele também poderia ser preso pela polícia.

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Quinta-feira, 18/09, às 17h

“O Massacre da Serra Elétrica”, de Tobe Hooper
Ficção, 83’, EUA, 1974, 35mm

Após a polícia texana dar como encerrado o caso de um massacre de 33 pessoas, a instituição é acusada de conduzir uma investigação errônea e matar o homem errado. Dessa vez, o único sobrevivente fornece o seu depoimento do que aconteceu na noite do massacre.


Sessão surpresa

Quinta-feira, 18/09, às 19h




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

As Tartarugas Ninja

(Teenage Mutant Ninja Turtles, EUA, 2014) Direção: Jonathan Liebesman. Com Megan Fox, Will Arnett, William Fichter.



Por João Paulo Barreto

Começar um texto sobre um filme com o elogio de que “a obra, por não se levar a sério, acaba por apresentar um bom resultado”, não é a melhor maneira. Isso é fato. No entanto, é preciso levar em consideração essa possibilidade quando se trata da versão século XXI de As Tartarugas Ninja. Todos os pontos positivos do longa de Jonathan Liebesman se baseiam justamente nisso. Explico.

A começar, claro, pela premissa de tartarugas adolescentes mutantes ninjas lutando contra o crime em uma Nova York cujo principal grupo de bandidos é conhecido por Clã do Pé (sim, isso se deve ao fato de que eles pisam nos seus inimigos ¬¬). Esse mesmo grupo se alia a um cientista magnata com o plano de espalhar pela cidade um vírus cujo antídoto somente ele possui e pretende vendê-lo a um preço que o tornará ainda mais rico. E não somente isso: o líder do clã, um ninja cuja armadura reflete as obras recentes do produtor Michael Bay, pretende governar a cidade. Ufa.

Transformer fazendo ponta no filme: produção de Michael Bay

Classificando todos esses “meros detalhes” como motivos para não se levar a sério mesmo, As Tartarugas Ninja até que agrada como comédia. As tiradas das criaturas adolescentes do título são divertidas, principalmente quando centradas na brigas entre os irmãos mutantes e no personagem de Donatelo, com sua paixonite pela repórter April O’Neal (Megan Fox, cuja beleza na tela parece nos fazer esquecer de sua total limitação como atriz).

Como um filme oriundo das histórias em quadrinhos, os enquadramentos utilizados por Liebesman funcionam bem, como na cena que abre o filme ao vermos um breve resumo da trajetória prévia e evolução das tartarugas e de seu mestre, o rato de laboratório Splinter. Do mesmo modo, a transição dessa narrativa estilizada para a imagem da Nova York real, e as sequências de ação com os protagonistas em fuga pelos esgotos enquanto escorregam por túneis usando seus cascos como pranchas ou skates, referenciam de forma empolgante o universo das HQs nas quais se baseiam.

Fox: Tino jornalístico e beleza estonteante  

Com fotografia do brasileiro Lula Carvalho, o filme se equilibra muito bem entre o clima soturno dos esgotos e da noite de Nova York, fazendo jus ao seu material original, bem diferente das primeiras inserções dos personagens no cinema, no começo dos anos 1990. Personagens estes que, dessa vez, assustam em seu realismo e brutalidade física, algo que denota uma fidelidade impar ao material dos quadrinhos, excetuando-se, claro, o aspecto violento excessivo que a versão impressa continha.

Num filme que termina com a música Happy Together, do The Turtles, cantada por uma, hummm, tartaruga, talvez isso nem faça tanta falta, de fato. 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Homem das Multidões

(Brasil, 2012) Direção: Marcelo Gomes e Cao Guimarães. Com Paulo André e Silvia Lourenço.



Por João Paulo Barreto

A solidão é o que move os personagens de O Homem das Multidões. De forma paradoxal ao seu título, Juvenal, seu protagonista, não faz parte de nenhum vasto universo de pessoas. Vive solitário em sua rotina de operador de trem, observando estações passarem estagnadas adiante do mesmo modo que sua vida segue, paradoxalmente, inerte e em frente.

Introspectivo e sem traquejo social, não tem muita naturalidade para conversar com colegas de trabalho, mantendo-se em silêncio durante horários de almoço e sem conseguir dizer não a um interesseiro que insiste em pedir-lhe uma constante troca de turno. Pragueja sobre isso, em casa, ao tentar realizar uma faxina que parece nunca tornar aquele ambiente menos sujo. Mas nunca cria a coragem para dizer o não necessário para se afirmar.

Sua visão de mundo se altera um pouco ao conhecer Margô, a coordenadora de trafego que controla sua linha. No entanto, qualquer esperança que nutra no sentido de tê-la torna-se apenas um devaneio diário. Noiva e sem o mesmo traquejo social que falta a ele, ela derruba qualquer pretensão romântica sua ao convidá-lo para ser seu padrinho de casamento sob o pretexto de não conhecer ninguém a quem fazer o mesmo pedido. Claro, Juvenal ensaia sozinho uma negação ao pedido, mas, pouco tempo depois, lá está ele, alugando um terno para a ocasião e trocando o par de sapatos sociais pelos calçados do dia-a-dia de trabalho, numa brilhante alusão a sua condição dependente ao seu meio de vida. 

Juvenal em seu apartamento: solidão e desajuste
O Homem das Multidões é um filme que trata de desajustados. Pessoas que passam pelo mundo sem qualquer intenção de desafiá-lo, seguindo apenas as horas do dia ou sendo empurradas por elas. Juvenal ainda tenta ter uma vida, pelo menos algo que, em sua visão, o distraia com algum norte. Mesmo que isso signifique visitas a prostíbulos, exercícios físicos por conta de um possível interesse de Margô, e caminhadas a esmo por shoppings, subindo escadas rolantes para, logo em seguida, descê-las.   

Margô, ao passar seus dias a observar apenas os monitores de segurança, encontra em Juvenal alguém com quem compartilha seu silêncio e introspecção, apesar dos breves desabafos relacionados ao trabalho. E é tocante como ela se identifica com o desajuste deste, presenteando-o com copos novos quando este não podia lhe servir água por  possuir somente um em casa, ocasião em que aceita de bom grado beber direto da garrafa.  

Margô e Juvenal: silêncio confortável
Contemplativa e pausada, é uma obra que desafia o espectador e, ao mesmo tempo, o prende, cativando-o com uma história simples, mas que, apresentando personagens tão extraordinariamente comuns, acaba por se tornar de uma profundidade impar.

Em uma atualidade tão repleta de meios urgentes e fugazes de comunicação, o silêncio atencioso entre duas pessoas em um ambiente tende a se tornar, de fato, deslocado. Aqui, a naturalidade como isso se apresenta é que o classifica como imprescindível para duas pessoas que só encontram algum conforto quando estão na presença silenciosa e mútua.