quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sinais de Cinza - A Peleja de Olney contra o Dragão da Maldade

(Brasil, 2015) Direção: Henrique Dantas. Com depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Ilua São Paulo, Pilar São Paulo, Olney Saão Paulo Jr., Luiz Paulino, Helena Ignez, dentre outros.


Por João Paulo Barreto

A urgência do cinema feito por Henrique Dantas não é algo a se negligenciar. Realizado antes de A Noite Escura da Alma, único documentário a abordar os mandos e desmandos políticos do clã Peixoto de Magalhães, bem como as barbáries causadas na Bahia pelos militares a partir do golpe de 1964, em Sinais de Cinza, sua lente volta para um individuo único. Alguém cuja trajetória ceifada de modo tão brutal nos privou de um cinema feito com afinco, coragem e contestação. A Peleja de Olney contra o Dragão da Maldade é uma obra que nos leva a refletir acerca da importância do resgate da memória, acerca da valorização do que é nosso em termos culturais e, o mais importante, nos alerta que não é tarde (ainda) para que esta mesma memória do cinema brasileiro possa ser conservada.

Aqui, o foco de Dantas está na curta e traumática trajetória de vida do cineasta Olney São Paulo, diretor acusado de subversivo pelo regime por conta da obra Manhã Cinzenta, supostamente exibida durante um voo sequestrado e desviado para Cuba por rebeldes contra intervenção militar no Brasil. Foi preso, torturado e, mesmo após ter sido solto pela quadrilha da ditadura, continuou perseguido física e psicologicamente pelos vermes do regime, algo que afetaria sua saúde de modo irremediável e o levaria a morrer em 1978, aos 41 anos de idade.  Através de depoimentos de figuras como Nelson Pereira dos Santos, Silvio Tendler, Luiz Paulino dos Santos, Helena Ignez, dentre outros, além dos filhos de Olney, Maria Pilar, Ilya São Paulo e Olney Júnior, o longa aborda a história do realizador através da força de sua própria obra.

A lenda viva Luiz Paulino é um dos entrevistados no projeto
É a partir das palavras daqueles ligados a Olney e das imagens de seus filmes projetados nas paredes de casas do sertão que sua narrativa de resistência é apresentada ao espectador. São longas como Grito da Terra, de 1964, no qual vemos um levante de lavradores famintos que atacam sacas de farinha. Obra marcante na filmografia baiana, além de ser um dos primeiros trabalhos do período a trazer personagens femininas distantes de uma postura subjugada; O Forte, que, baseado na obra de Adonias Filho, apresenta, através de uma ficção, um registro histórico do monumento do forte de São Marcelo; e Ciganos do Nordeste, filme que aborda a saga dos andarilhos em solo sertanejo.

Mas, além do resgate das imagens da obra de Olney, a força do registro realizado por Henrique Dantas está, também, nos depoimentos captados em sua pesquisa. Principalmente no registro das falas dos filhos do diretor, Ilya, Olney Jr. e Pilar. Há um peso nas palavras daquelas pessoas. Um peso que se mescla entre a frustração, a inércia e a tristeza, algo que Dantas capta sem oportunismo, mas com um senso de respeito pela dor daquelas pessoas, cujo sofrimento ainda teve um novo revés com a perda do irmão, Irving São Paulo, em 2006.

Nelsão definindo bem a presença cinematográfica de Olney
Quando vemos Olney Jr. cantar Robert Johnson, além de uma versão de Wish you Were Here, do Pink Floyd, percebemos que o poeta encontra ali seu modo particular de denotar a vontade de ter crescido ao lado de pai. Algo que vemos, também, nas lágrimas de Pilar ao lembrar tanto de Olney quanto do irmão Irving, e na fala dura e contundente de Ilya, que não se permite abater ao demonstrar de modo às vezes áspero, mas sem se deixar amargurar pela frustração, como se sente em relação à perda de seu velho.

Trata-se de um documentário que ousa. Um filme que traz em sua construção visual um modo bem sucedido de captar a energia do legado fílmico de Olney.

E, além disso, traz um alerta para que não se perca este legado, que se encontra abandonado e carecendo de restauro e conservação..


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vida

(Life, EUA, 2017) Direção: Daniel Espinosa. Com Jake Gyllenhaal, Rebeca Fergunson, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada.


Por João Paulo Barreto

Vida, ficção científica/terror espacial dirigido por Daniel Espinosa, dos violentos e eficientes Dinheiro Fácil e Protegendo o Inimigo, traz em sua estrutura todos os elementos de acerto em filmes de horror no espaço sideral. Desde o mistério em torno do aparecimento do tal ser alienígena, passando pela sua revelação como uma ameaça aos astronautas, chegando à caçada e eliminação um a um dos integrantes da nave, o longa consegue criar uma boa atmosfera dentro de sua premissa.  

Com um plano sequência de abertura a referenciar o recente Gravidade, de Alfonso Cuarón, e uma trilha sonora marcante que valoriza sua intenção de desconforto e tensão para o espectador, a obra localiza bem seus personagens, demonstrando de modo bastante econômico as características que vão delinear suas personalidades e justificar suas ações durante todo o filme.

Dr. David Jordan (Gyllenhaal) diante de um ser longe da sua compreensão
Porém, todo o trabalho de construção do perigo rondando aquela criatura celular que cresce para se tornar uma espécie de polvo espacial se esvai quando o design de efeitos visuais opta por uma dar uma óbvia face maligna ao marciano apelidado de Calvin. Uma vez que vemos o surgimento do ser unicelular desde sua presença microscópica , a intenção de criar medo no espectador por conta da cara raivosa da criatura acaba por minimizar e tornar caricato seu impacto no espectador.

Manter-se fiel à proposta de impressionar justamente pela sugestão de perigo para, em seguida, entregar o verdadeiro terror físico teria sido uma opção mais feliz no desenvolvimento da trama. Contrariamente, o filme acaba cedendo ao clichê fácil, optando por inserir a tal expressão bestial do vilão de modo a ameaçar a tripulação e o público. 

Calvin prestes a mostrar a que veio
Apesar disso, Vida desenvolve-se bem em seus elementos de terror que remetem ao Alien de Ridley Scott, como quando coloca os tripulantes a caçar a criatura pelos corredores da estação espacial e sendo surpreendidos por ela quando menos esperam. Elementos que, claro, no clássico de quarenta anos atrás, eram inseridos de modo bem mais claustrofóbico por conta da ambientação escura e labiríntica do seu cenário. Aqui, no entanto, o ambiente clean e hermético da nave, somado aos efeitos especiais responsáveis pelo design de Calvin que deixam a desejar na criação em CGI do ser, acabam por reduzir o impacto de sua aparição.

Com um final corajoso, mas que, infelizmente, abre possibilidades para uma continuação um tanto descabida, Vida, mesmo com seus problemas, consegue entreter ao se ater no desconforto gerado por sua tensão. Uma pena que não souberam aprofundá-la através das várias possibilidades de horror que o seu roteiro poderia oferecer.


   

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Velozes e Furiosos 8

(The Fate of the Furious, EUA, 2017) Direção: F. Gary Gary. Com Vin Diesel, Dwayne Johnson, Jason Statham, Michelle Rodriguez, Kurt Russell, Scott Eastwood.


Por João Paulo Barreto

Talvez tenha sido a franquia Velozes e Furiosos a que mais exigiu do espectador e dos críticos a aplicação do termo suspensão da descrença. Não somente por ter alcançado tamanha longevidade com oito filmes em dezesseis anos, mas pela capacidade de sempre conseguir  superar os absurdos apresentados em cada um dos seus longas anteriores.

O que se vê na parte oito nada mais é do que uma reciclagem das ideias trazidas no decorrer de toda a série, levando em consideração, claro, a proposta de criar momentos ainda mais impactantes visualmente e que exijam dos tais veículos o máximo de suas já inacreditavelmente absurdas capacidades. E se aqui temos Dwayne Johnson desviando um míssil com as próprias mãos, bom, quanto mais absurdo, melhor.

Deckard e Luke: amor reprimido
Depois de colocar os carros com paraquedas saltando de um avião e com seus motores em pleno funcionamento na parte anterior, o que fazer para superar isso? Talvez essa tenha isso a principal pergunta dos produtores para seu roteirista Chris Morgan, responsável pelo desenvolvimento de quase todos os filmes da leva. “Vamos colocar um submarino na jogada!” Ao ver isso acontecendo na tela, o que lhe chega à mente é a percepção que eles terão que colocar as máquinas possantes no espaço sideral para fazer a nona ou a décima sequência surpreender.

Em se tratando de sua história e da interação entre seus personagens, o oitavo trabalho traz momentos de boa química, principalmente entre Johnson (figura que vem se destacando pelo carisma) e Jason Statham que, digam o que quiserem, precisam assumir que se amam e que sentem atração um pelo outro. Observar Luke levantando peso para se exibir para Deckard foi a comprovação máxima.

Charlize Theron emprestando credibilidade à série 
Mantendo a forçada ideia de “somos uma família”, algo que já soava pretensamente cafona lá em 2001, quando o primeiro chegou às telas, aqui, ao menos, há a inserção de personagens que, de fato, representam a criação de uma, como vemos no próprio Vin Diesel a homenagear a figura de Paul Walker batizando seu filho como Brian, nome do falecido ator na série.

Some a isso a presença de Charlize Theron cedendo sua credibilidade de “vencedora do Oscar (mas preciso pagar as contas)” ao filme, e lá está uma vilã que, apesar de ficar no mesmo ambiente durante quase 100% do tempo, apertando botões e tendo que demonstrar emoções ao simplesmente observar um monitor, convence no melhor estilo vilão Bond.

Toretto e Cypher: Traição? hmmmm, esse plot twist já estava evidente
No mais, lá estão as perseguições nas ruas de Nova York, desta vez sendo atacada por “carros zumbis”, corridas de marcha à ré nas vielas de Havana (com direito a lição de moral de Toretto e respeito à cultura cubana – toma, Trump!) e todas as piadas envolvendo o Sr. Ninguém, interpretado por Kurt Russell, aqui com a ajuda de Scott Eastwood, a vitima da vez no grupo de exímios motoristas que, não se sabe por qual razão, é sempre contratado pela agência do governo para resolver problemas que agentes treinados podem (e devem) resolver. Mas, divago.


No geral, o saldo é positivo. Qualquer erro e extravagância cometidos aqui, eles terão muitos outros longas para corrigir e superar. Para o bem ou para o mal. 

Por Trás do Céu - Entrevista Emílio Ociollo Netto

(Brasil, 2016) Direção: Caio Sóh. Com Emílio Orciollo Netto, Nathalia Dill, Renato Góes, Paula Burlamachi.


João Paulo Barreto

Por Trás do Céu, trabalho vencedor do prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular na edição do anos passado do CinePE, mais do que uma obra dentre as tantas que buscam representar um suposto universo fantástico existente no sertão nordestino, é um estudo pertinente do ser humano em relação aos seus traumas. Assistir ao filme de Caio Sóh é um exercício de análise do modo como a fuga e a busca do esquecimento de uma dor podem vir a proteger o individuo de impactos psicológicos ainda mais severos do que os que já se abateram sobre ele.

No longa, Aparecida (Nathalia Dill) e Edivaldo (Emílio Orciollo Netto) levam a vida em lavouras, cortando palma para alimentar o gado. A notícia da chegada do primeiro filho é recebida com susto e alegria. A comemoração é com rimas de repentistas. Entretanto, os traumas da violência, da dor e da perda não tardam a chegar. A fuga dos dois personagens centrais é tanto física quanto mental, principalmente para Aparecida, que em um novo mundo, esconde seu martírio em situações escapistas.

Aparecida (Nathalia Dill): Traumas do passado escondidos em sua ingenuidade
A tal fuga os leva a um estado de inércia, no qual a fantasia mental da mulher só não é tão presente quanto a sede de vingança do marido. Ela parece já ter se desligado do seu passado tenebroso, abraçando no processo não um futuro que possa se apresentar, mas uma realidade onírica, na qual a dor é suplantada, substituindo-a por questionamentos que beiram o infantil. Edivaldo, porém, ainda mantém vivo o sentimento de ódio por aqueles que o fizeram seguir naquela nova jornada. É justamente isso que o faz olhar para frente, mas sem esquecer o se passou.

Em visita a Salvador para divulgar o filme, Emílio Orciollo Netto afirma que “o que Por Trás do Céu propõe é um diálogo entre esse mundo fantástico, onírico e sonhador com o mundo realista. Com o mundo duro da realidade, do dia a dia.” Para o ator, é um filme que aborda uma dicotomia. “A gente encontra estes dois mundos. Que é o da Aparecida, o do sonho, e o do Edvaldo, que é o mundo da terra, do trabalho, do dia a dia”, observa.

Edvaldo (Orciollo Netto): Aspereza e tristeza para esconder a dor da perda
O diretor Caio Sóh, em seu roteiro, constrói personagens que seguem lutando contra a realidade que os cercam. É um filme que aborda a amargura, mas sem esquecer-se das inserções cômicas, como as do ladrão de cenas Micuim, vivido por um inspirado Renato Góes. Em um cenário folclórico, repleto de elementos estilizados, que vão desde asas em uma tartaruga, passando pelo figurino quase apocalíptico do personagem de Edivaldo, Sóh cria uma fábula descompromissada com o real, mas que cria reflexões centradas no palpável. Para o Orciollo Netto,  “o filme tem um compromisso com o sertão do sonho, do lúdico. Não se trata de um documentário que fala sobre a miséria no nordeste ou sobre as dificuldades de uma família. Ele é sobre um encontro, no qual se misturam estas estéticas do onírico, do mundo fantástico.”

Aparecida, em sua doçura e ingenuidade, parece ter a dolorosa trajetória de sua vida como um borrão de memória. Borrão esse que é obliterado justamente pelo modo quase infantil como a vida, agora, se apresenta aos seus olhos. No entanto, tal secura e fel da realidade não tardarão a fazê-la perceber o quão duro pode ser o mundo fora de todo aquele lirismo. E é deveras doloroso vê-la assumir a postura de amargura diante de um novo golpe que esta mesma vida lhe causa.

Emílio Orciollo Netto em visita a Salvador para divulgação

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Una

(Reino Unido, 2016) Direção: Benedict Andrews. Com Rooney Mara, Ben Mendelsohn, Riz Ahmed.


Por João Paulo Barreto

Há em Una, estreia no cinema do diretor Benedict Andrews, uma coragem semelhante à de Kubrick e a de Lars Von Trier. Enquanto o primeiro levou a obra de Nabokov ao cinema de modo a analisar o pedófilo Prof. Humbert adentrando em sua mente e observando suas fraquezas e tentações a partir de sua própria óptica (seja ela doentia ou não, definição que o filme não aprofunda), Von Trier inseriu na parte dois de sua obra essencial, Ninfomaníaca, uma cena na qual a protagonista disseca um também pedófilo através do sofrimento que ela acredita que o mesmo deva sentir na necessidade de dar vazão aos seus desejos criminosos.

Na obra de Andrews, cujo roteiro se baseia na peça escrita por David Harrower e adaptada aqui pelo próprio, tal julgamento, entretanto, é feito pelos dois lados. Não somente por uma óptica unilateral da vitima ou do perpetrador, ou de uma análise estritamente externa. Este acaba sendo o grande acerto da produção.

A proposta inicial de discussão do filme é analisar os traumas a partir da posição da vítima, que teve não somente seu corpo, mas sentimentos amorosos corrompidos aos 13 anos de idade. A protagonista título, seduzida por um homem mais velho, leva aquela cicatriz de forma solitária e conturbada até a fase adulta.  É quando finalmente decide confrontá-lo para, ao menos, compartilhar todo o sofrimento e trauma psicológico que sofreu não somente pela sedução, mas por ter sido abandonada física e afetivamente por aquele por quem se apaixonara e com quem teve sua primeira experiência sexual.

Una reencontra Ray após anos de traumas reprimidos
De um modo positivo da palavra, trata-se de um filme expositivo. Durante os noventa minutos de duração, vemos o reencontro dos dois depois de anos do ocorrido. Dali, descrições de sentimentos virão à tona de modo explosivo, com Una se abrindo pela primeira vez para alguém desde o momento em que percebeu que teve sua infância roubada. O fato da única pessoa que ela encontra para confiar aqueles sentimentos traumáticos ser justamente o homem que os causou, denota bastante da solidão sofrida pela jovem. Solidão não somente física, mas mental (“Você não faz nem ideia”, diz a jovem para sua mãe, denotando justamente sua solidão em todo aquele processo). Incapaz de sentir e de se relacionar, a personagem vivida por uma excelente Rooney Mara, responde com negativas a questionamentos sobre ter um namorado, busca fugas em transas casuais com estranhos e chora durante o sexo com alguém diretamente ligado ao seu primeiro amor.

Do lado de lá, está a presença de Ray, ou Peter, como é conhecido socialmente nos dias atuais, após quatro anos de reclusão e buscando fugir de seu passado criminoso. Na evolução de seu roteiro, Harrower opta por colocá-lo não em uma presença predatória ou exclusivamente doentia, mas em um estado de confusão mental e insegurança quanto aos seus sentimentos que, apesar de não justificar de modo algum suas atitudes, ao menos o insere dentro de uma categoria de personagem longe de clichês vilanescos ou construções unidimensionais. Trata-se de um homem que cometeu um crime grave ao dar vazão a um sentimento absurdo, mas que cometeu ato tão brutal quanto quando não pôde (ou foi impedido por circunstâncias fora de seu controle, como o filme exibe) demonstrar o quão importante Una era para sua vida, criando para a então adolescente uma ilusão ainda mais áspera.

Ray diante da vazão de um sentimento criminoso
Trata-se, entretanto, de uma obra cuja dissecação foca na perda sofrida pela sua protagonista. Presa a um sentimento e a ações que lhes foram apresentados de modo precoce, a infância que lhe foi extirpada e a face adulta que lhe é imposta acabam por machucá-la de modo irremediável. E enquanto Ray conseguiu uma nova vida e um novo nome para enterrar os seus erros do passado, sua vítima ficou presa àquele período. “Tenho o mesmo nome desde sempre. Vivo na mesma casa e sou julgada pelos mesmos vizinhos daquela época”, explica a jovem em meio ao desespero de sua dor.

Diferente de Paulina, obra de 2015 cujo desserviço para a sociedade é óbvio em seu discurso masculino acerca da submissão da vítima diante de criminosos supostamente criados por um meio e que têm nisso uma pretensa justificativa para seus atos monstruosos, Una oferece uma discussão mais rica em seu resultado final.

É um filme que não escolhe lados, preferindo dar ao espectador uma opção de conhecer as duas faces daquela história. Mas, felizmente, salienta que para o lado mais fraco daquela balança, a dilaceração psicológica foi bem mais intensa e que, por isso, seu perpetrador não necessita de comoção por parte do público, mas, sim, de seu desprezo.


quinta-feira, 30 de março de 2017

Ghost in the Shell

(EUA, 2017) Direção: Rupert Sanders. Com Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Michael Pitt.


Por João Paulo Barreto

O desafio aqui é falar de Ghost in  the Shell, versão live action, sem cair na armadilha raivosa de criticar a escolha do elenco norte americano para viver personagens que, na animação, são orientais. Cinema é indústria. Indústria custa caro. Estampar a cara da Scarlett Johansson no pôster atrai investidores e público. E, no final, o interesse principal dos produtores é esse. Então, se não quiser assistir à versão live action, a excelente animação sempre servirá de consolo.

Dito isso, passemos a análise da obra propriamente dita. Como entretenimento, Ghost in the Shell funciona bastante. Trata-se de uma produção caprichada, repleta de boas sequências de ação, uma direção de arte que se destaca pelo modo como cria um futuro que, em parte, se vê de acordo com o esperado para a humanidade, no qual superpopulações se espremem em grandes metrópoles e a publicidade parece invadir o dia a dia das pessoas de forma incisiva. A cidade do filme, inclusive, mescla uma espécie de Nova Iorque futurista, com a Los Angeles de Blade Runner (em todas as suas óbvias referências) com a Tóquio original da animação.

Neste futuro, crimes são previstos com antecedência, algo que remete à obra de Phillip K. Dick, seres humanos podem ser aprimorados com tecnologia cibernética e ciborgues coexistem com pessoas. Major (vivida por Johansson) é uma agente da organização Section 9, que persegue um suposto terrorista virtual com a capacidade de hackear mentes que possuem melhorias cibernéticas.

Major em momento de reconstrução
É curioso observar como o filme trabalha a questão da solidão e dos questionamentos tão comuns à humanidade, mas a partir da óptica de um robô, ou, no caso, de um ciborgue, uma vez que Major possui apenas o cérebro humano. Neste sentido, o filme busca trazer certa profundidade à sua protagonista, colocando-a em uma busca que, diferente da que vemos na animação, até que enriquece a personagem, apesar de torná-la um tanto deslocada dentro da trama central, que na animação trata exclusivamente da caça ao terrorista Puppet Master, um ser virtual que consegue, como um vírus de computador, penetrar no sistema da organização a fim de destruí-la.

No longa, claro, há algumas mudanças referentes às motivações da protagonista, que ganha toda uma trama relacionada à busca de suas origens. Compreensível, uma vez que se trata do maior destaque do filme. Porém, é decepcionante perceber que os roteiristas Jamie Moss e William Wheeler cederam à armadilha de colocá-la em uma relação direta com o personagem do Puppet Master que, aqui, de modo deslocado, ganha uma face humanóide na figura de Michael Pitt. Ao ceder à tentação reducionista de usar um vilão convencional (e clichê), ao invés de se ater à animação original, a versão em live action perde força.

Puppet Master ganha a face de Michael Pitt
Do mesmo modo, a inserção de uma personagem que representa alguém diretamente oriundo do passado da Major não colabora tanto para o seu desenvolvimento. Entretanto, apesar disso, a justificativa para a diferença étnica e o uso de um nome oriental para a personagem de Johansson (Motoko Kusanagi) é bem justificada dentro da trama, uma vez que o invólucro (ou Shell, como queira) da Major pode até ser anglo-saxão, mas seu cérebo continua bem japonês, como confirma o nome (ok, haters, não deu para resistir a esse comentário).

Com cenas de luta e invasões com tiros que remetem a Matrix, algo divertido de se observar uma vez que o longa de 1999 já usava assumidamente toda e qualquer referência à animação lançada quatro anos antes, Ghost in the Shell peca por um falta de criatividade neste sentido, usando momentos clichê como personagens subindo em paredes ou atravessando vidraças com os cacos causando aquele já conhecido efeito visual. Ao menos, uma referência direta ao visual gore da animação é feita quando a personagem precisa destruir um dos seus membros. Mas as explosões faciais tão hipnotizantes no desenho fizeram falta. Compreensível, uma vez que na versão americana, a classificação indicativa (e consequentemente o faturamento) impediria.

Sequências já vistas em outros filmes, mas que ainda funcionam
Há, no entanto, momentos marcantes, como a participação de Takeshi Kitano como o fodão Aramaki, que no melhor estilo “I´m too old for this shit”, entrega, para regozijo dos fãs, uma ótima sequência de vingança. Ou ainda as assustadoras inserções das gueixas cibernéticas logo em sua abertura.E como é curiosamente bom ver Juliette Binoche em papeis tão pop!


Deixe de lado o mau humor. Desapegue e dê uma chance. Depois reveja o desenho duas ou três vezes para compensar. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

T2 Trainspotting

(UK, 2016) Direção: Danny Boyle. Com Ewan McGregor, Ewen Bremner, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller.


Por João Paulo Barreto

Vinte anos é bastante tempo. Eu ainda estava no curso ginasial há vinte anos. Curioso olhar para trás e perceber suas mancadas e seus acertos. Seus arrependimentos, seus sucessos e seus lamentos. 
Reencontrar-se com seu passado, não somente com uma fase específica, mas todo um apanhado do que você fez durante esse tempo até o dia de hoje, pode ser um exercício ao mesmo tempo satisfatório e perigoso. Nostalgia vicia. Vicia quase (eu disse quase) da mesma forma que a heroína que vinte anos atrás dominava a vida de Renton (McGregor). Vicia quase da mesma forma que a mesma droga dominou a vida de Spud (Bremner) pelas últimas duas décadas. Vicia do mesmo modo que a violência e agressões físicas tornam a trajetória de Franco Begbie (Carlyle) mais aceitável em sua própria vida. E vicia tanto quanto o rancor que mantém Simon “Sick Boy” (Miller) vivo e, claro, mais dependente das carreiras de cocaína. Mas essa mesma nostalgia te ensina a refletir e a reparar antigos erros.

T2 Trainspotting possui uma cena na qual Sick Boy censura Renton por querer reviver fatos do passado daqueles quarentões, quando todos ainda estavam com vinte e poucos anos. “Isso é nostalgia. Você é um turista em sua própria juventude. Nós éramos jovens. Coisas ruins aconteceram”. E mesmo com toda sua roupagem pop, trilha sonora envolvente, cortes secos e rápidos característicos do estilo de Danny Boyle desde o primeiro filme de 1996, essa continuação não escapa de uma roupagem triste, de pessoas em busca de uma redenção e do próprio perdão pelos erros do passado. Pessoas que exibem agora as marcas da idade (e das frustrações e insanidades) em seus rostos. Na mesma cena, Simon censura Renton, fazendo-o lembrar que foi ele quem vendera a primeira dose de heroína ao falecido Tommy. Renton revida e atinge o amigo em cheio ao devolver a lembrança de que, agora, o bebê morto de Simon seria uma moça cheia de vida e planos para o futuro. T2 Trainspotting, ao final, se resume a isso. Golpes certeiros na consciência de cada um. Por debaixo da graça inerente ao longa, há um sabor amargo e uma camada de tristeza por debaixo do seu tom de comédia.

Down to the memory lane: Simon, Renton e Spud honram Tommy

Para o espectador, porém, é um reencontro com os personagens marcantes. A ideia de mostrar cada um deles em suas vidas atuais e compará-las com as pregressas causa graça, principalmente quando o foco está no ingênuo Spud, que, desde o inicio, já se mostra como a melhor coisa do filme, como quando explica a razão para seus fracassos está no fato de estar sempre uma hora atrasado para seus compromissos da vida pós-heroína. “Como eu poderia saber que existia algo como o horário de verão se eu fui um junkie pelos últimos vinte anos?” Pergunta relevante...

Trata-se de um filme que funcionaria bem sozinho, mas a opção de Danny Boyle em inserir constantes referências ao original, no começo, funciona. Porém, no decorrer das duas horas de projeção, acaba por cansar um pouco. Mas não ao ponto de enfraquecer demais o longa. No entanto, isso acaba por torná-lo dependente demais de seu predecessor. Mas entendemos que a pretensão de Boyle é a de fechar um ciclo. E, por isso, qualquer intenção forçada em referenciar a obra de 1996 acaba sendo relevada em nome da ótima atmosfera captada pela continuação.  E isso ele consegue sem necessariamente querer causar a mesma revolução visual que foi o longa noventista. Aqui, não houve nenhuma autocópia ou busca do impacto sensorial que foi a cena do banheiro. Aliás, é delicioso pescar as referências feitas durante a projeção, como quando Renton cai por cima de um capô de carro e sorri para a câmera, ou quando Spud se vê diante da mesma rua onde anos antes correra após um furto.

Begbie e sua fúria contra Renton
No aspecto visual, Boyle resgata os tons pastéis e os papeis de parede em casas populares escocesas em uma bem sucedida autorreferência. E nesta mesma passagem, uma sombra familiar na parede parte o coração do espectador. O momento em que Renton adentra em seu antigo quarto causa no espectador quase o mesmo impacto que nele mesmo. E o medo do efeito que o disco de Iggy Pop com a faixa Lust for Life causará nele é bem compreensível. Apenas a batida inicial da faixa já é suficiente para deixá-lo apreensivo. E o espectador parece também sentir o mesmo impacto e receio.

A percepção final é a de estarmos diante de três caras atormentados (Begbie não conta. Continua o mesmo psicopata de sempre). Atormentados e fracos, como podemos perceber pela recaída de Renton e Sick Boy pela agulha na veia. Apesar de seu discurso atualizado do monologo Choose a Life, Renton, mesmo com 46 anos, ainda denota o mesmo grau de imaturidade de vinte anos atrás. Não há muita redenção para aqueles indivíduos e é um alivio perceber que o filme não se rende a esse artifício sentimental. Quando vemos Begbie pedir perdão ao filho e se despedir de sua mulher, uma pretensa intenção piegas e inserida, mas, ainda bem, logo cai por terra. Aquele personagem está aquém de qualquer salvação. Sua dependência da violência já o dominara.

Contudo, é ótima a sensação ao percebemos ser Spud o mais forte dos três, o mais fiel ao seu processo de desintoxicação. Como disse o próprio Renton, Spud nunca machucou ninguém. É com regozijo que percebemos um final feliz para o coitado. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Fragmentado

(Split, 2016, EUA) Direção: M. Night Shyamalan. Com James McAvoy, Anya Taylor Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula.


Por João Paulo Barreto

Com uma carreira repleta de altos e baixos (mais baixos do que altos, é bem verdade), M. Night Shyamalan acerta a mão em Fragmentado, trabalho no qual ele volta a mirar nas questões psicológicas do ser humano e suas consequências para o mundo à sua volta tal qual havia feito no subestimado A Visita, seu longa anterior.

Aqui, diferente da psicopatia cruel e displicente do casal de idosos do filme de 2015, James McCavoy traz para seus vinte e quatro personagens (mas somente seis evidenciados e desenvolvidos pelo filme) uma mescla exata da citada crueldade, de frieza, doçura, inocência, pragmatismo, aspereza e brutalidade, características inerentes a cada uma das pessoas que habitam sua mente. Com uma atuação precisa, o jovem ator escocês parece flutuar de uma performance para a outra, trazendo para o público uma marca reconhecível para cada personalidade que habita o corpo do protagonista, seja ela a postura inflexível, um olhar ou um modo infantil de se expressar. Em uma construção na qual as nuances são imprescindíveis, McAvoy coloca cada uma delas em serviço da sua excelência.

McAvoy e sua versão infantil
Na história, o atormentado homem sequestra três jovens e as mantêm como reféns em um ambiente subterrâneo. O pretexto é o de que elas servirão como alimento para uma criatura que ainda surgirá, algo que logo percebemos se tratar de uma nova personalidade do sequestrador. Em seu roteiro, Shyamalan cria uma atmosfera incomoda de tensão justamente pela ideia de que o foco dessa vez possui raízes no universo real, sem qualquer tipo de escape relacionado com algo sobrenatural ou imaterial. O perigo aqui é calcado no plausível. E o incomodo principal do espectador está diante justamente desse fato.  

Na figura da personagem de Anya Taylor-Joy, que já havia se destacado no thriller A Bruxa, Shyamalan aproveita para explorar uma de suas marcas como roteirista que é a perda da inocência infantil, além de voltar a aplicar outra marca que é a da câmera subjetiva a partir do olhar de uma criança. No caso, Casey Cooke, personagem vivida por Joy na adolescência, possui um passado de abusos, no qual foi molestada pelo seu tio (a forma como o diretor opta por evidenciar choca pelo modo ao mesmo tempo sutil e monstruoso como tal fato é mostrado). Neste arco, a riqueza de interpretações que o roteiro oferece denota bem a profundidade da escrita do diretor. Em uma história na qual um personagem monstruoso esconde sua verdadeira face no intuito de conquistar a confiança de uma criança, o que dizer de um personagem que possui várias personalidades, mas todas elas são fieis ao próprio conceito de autenticidade, sem dissimulações ou truques? Ele é o que é. Curioso exercício o de imaginar quem é o verdadeiro monstro aqui. 

Casey em seu primeiro momento de desespero
Mas o que impressiona de fato no filme ainda é a atuação de McAvoy. Seja em uma sutil homenagem de Shyamalan ao seu principal ídolo, Alfred Hichcock, com tomadas que referenciam Norman Bates e Psicose (principalmente quando uma personalidade feminina do protagonista é inserida em rápidos vislumbres para depois se revelar), ou quando a tal última e definitiva pessoa na mente dele é trazida à vida e sua característica animalesca é evidenciada de modo ao mesmo tempo fascinante e asqueroso.  

É bom tê-lo de volta à velha forma, M. Night.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Entrevista: Finnegan Oldfield

O ator durante visita a São Paulo na divulgação de Os Cowboys
Finnegan Oldfield esteve no Brasil em 2016, ocasião em que divulgou Os Cowboys durante o Festival Varilux de Cinema Francês, no Rio de Janeiro e São Paulo. Filme atual em relação à situação do Estado Islâmico e a adesão de jovens europeus à doutrina de terror preconizada pela organização, Os Cowboys, apesar de ter sua história centrada no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, traz uma reflexão precisa para o que acontece no velho continente (principalmente na França) nos últimos anos.

Sobre esses aspectos da obra e outros assuntos, Finnegan Oldfield conversou com o blog Película Virtual.

OS COWBOYS ME REMETEU EM DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS AO CLÁSSICO DE JOHN FORD, RASTROS DE ÓDIO.

Sim, há diversas semelhantes. Mesmo não sendo uma refilmagem e eu não tendo utilizado o Rastros de Ódio em minha pesquisa, Thomas (Bidegan, diretor) me mostrou outros filmes na construção de Os Cowboys, como Cidade das Ilusões (Fat City), de John Huston, que não chega a ser um western, mas é uma obra que aborda a transmissão de uma pessoa para outra. É disso que fala o filme, mas utilizando todo esse viés e os códigos todos dos filmes de faroeste. Foi exatamente isso que ele quis fazer. Utilizando essa referência nos filmes de faroeste, como o uso dos planos abertos de montanhas e paisagens, por exemplo. Como no momento em que ele está fumando um cachimbo da paz junto aos talibans, em outra cena vemos pessoas a emboscá-los de cima de um prédio como se fossem índios nos desfiladeiros. A partir de um certo momento, o filme passa a ser um faroeste, principalmente quando já o vemos com seu revolver em punho e na cintura.

SEU PERSONAGEM NO FILME É BEM SOLITÁRIO. COMO SE DEU A SUA CONSTRUÇÃO?

Eu li muitas vezes o roteiro. Foram muitas conversas com o Thomas (Bidegain) sobre a personagem e suas ideias de como ele queria que esse adolescente se transformasse em um homem, em um cowboy. E isso foi muito interessante para o trabalho de ator e foi um desafio que eu encontrei para fazer esse papel.

A FRANÇA VEM PASSANDO POR UM PERÍODO CONTURBADO EM RELAÇÃO À POLÍTICA E A GUERRA CONTRA O EXTREMISMO DE ORIGEM RELIGIOSA. COMO FOI ABORDAR ESSE TEMA NO FILME?

Curiosamente, no caso de Os Cowboys, o filme foi feito antes dos atentados ao Charlie Hebbo, antes dos atentados de novembro de 2015. Isso o torna um filme ainda mais atual. Outros diretores realizaram trabalhos com temas relacionados e acabaram pagando o preço de não ver suas obras sendo lançadas por conta do contexto. Os Cowboys foi lançado na França em 15 de novembro de 2015, dois dias após os atentados. A dúvida que surgiu na época foi na possibilidade de lançá-lo ou não. Decidimos levar adiante a data justamente para não deixar que o terrorismo começasse a dar as ordens no cinema. Eu concordo com o Thomas Bidegain (diretor de Os Cowboys) quando ele diz que é preferível assistir a uma obra como essa do que aos noticiários que ficam mostrando sem parar esse assunto. É preferível ver um filme como esse do que os canais de notícias que exibem sem parar imagens dos atentados sem se aprofundar nos fatos. Concordo que a gente tem que estar informado sobre o que acontece, mas os filmes possuem uma outra maneira de contar a história.


EXATAMENTE. INCLUSIVE, ACHO QUE O FILME TEVE UMA CORAGEM IMPRESSIONANTE DE ABORDAR UM TEMA TÃO DELICADO QUANTO A PRESENÇA DE CÉLULAS TERRORISTAS NA FRANÇA. E ISSO JUSTAMENTE NA ÉPOCA DOS ATAQUES EM PARIS.

Foi complicado. Podemos dizer que esses fatos acabaram nos alcançando. A realidade alcançou a ficção do filme. Quando fomos filmar na Índia, todos nos diziam para ter cuidado por conta de riscos de terroristas e, enquanto nós estávamos lá filmando, os atentados ao Charlie Hebdo aconteceram. Bem ali, no centro de Paris. E decidimos continuar filmando. E essa foi a mesma atitude quando chegou a hora de lançar o longa

QUAL A SUA POSIÇÃO COMO CIDADÃO FRANCÊS DIANTE DESTE MOMENTO? É POSSÍVEL UMA COMPARAÇÃO COM A POSTURA DOS ESTADUNIDENSES APÓS O 11 DE SETEMBRO?

É uma difícil comparação por conta da diferença de escalas dos acontecimentos em relação a França e aos EUA. A nossa vida passou a ser pontuada por atentados. A gente lembra do 11 de setembro, dos atentados a Londres, a Madrid, ao Charlie Hebdo. E, ao mesmo tempo, estamos distantes disso tudo. É um pouco disso que o filme fala, também. No filme, quando o personagem vê na TV as torres gêmeas em chamas, ele se sente como se recebesse um cartão postal da irmã pedindo por ajuda. E a gente na consegue entender o que significa  enquanto não vivemos isso na casa da gente.



O FILME ABORDA UMA QUESTÃO DELICADA QUE É A SEDUÇÃO DO ESTADO ISLÂMICO PARA COM JOVENS ÁRABES E EUROPEUS. GEROU CONTROVÉRSIAS NA OCASIÃO DO LANÇAMENTO E PRODUÇÃO. DO MESMO MODO, ELE ABORDA PONTOS RELACIONADOS A PRECONCEITOS, RACISMO E XENOFOBIA. COMO SE DEU ESSA ABORDAGEM DO ROTEIRO?

O filme, na verdade, apresenta uma questão da emancipação dessa jovem. Talvez, se ele se passasse em outra época, como os anos 1980, ela talvez tivesse seguido para outro lugar, como Londres, morar em um cubículo e ficar se drogando. E a historia começa antes disso, em 1997, quando ainda não era comum que os jovens se juntassem ao Estado Islâmico. No fundo, é uma história sobre pessoas comuns que vão se sentir aspiradas por essa agitação e confusão que acontece no mundo. Em relação ao racismo, é verdade que o pai é bem aquela figura francesa que tem aquela postura xenofóbica e alguns comentários racistas acerca de imigrantes. Na metáfora do filme, o pai acaba considerando que essas pessoas sejam como os índios. Já o filho, não. Ele passa a ver os estrangeiros de uma maneira muito mais aberta. E isso é o que fará dele um cowboy, um herói. O Thomas queria fazer um filme sobre essa abertura de espírito. Sobre a mistura de raças. Sobre como é possível aprender as lições dos seus ancestrais e de como o conhecimento passa de uma geração para outra.

EM SEUS FILMES ANTERIORES, HÁ UMA CONSTANTE ABORDAGEM DE CUNHO SEXUAL. COMO SE DEU ESSE PROCESSO DE ESCOLHAS DE PAPÉIS?

Não cheguei a ver muitos filmes franceses com temáticas sexuais e não há muitos que sigam essa vertente. Em relação às minhas escolhas, são temas interessantes. Por isso eu aceitei fazer esses filmes. Para Mineurs 27, o que me interessou foi como uma pessoa consegue crescer tendo sido vitima de abusos, como ela consegue superar isso. Bang Gang seguiu o mesmo questionamento de como os jovens vivem essa liberdade sexual e experiências nas quais eles podem erra e em seguida se corrigir e superar tudo isso. Principalmente a visão que as outras pessoas têm disso em tempos nos quais as redes sociais são tão ativas.

QUAIS SÃO OS SEUS PRÓXIMOS PROJETOS?

Já estou com um novo filme pronto, dirigido por Bertrand Bonello (diretor de Os Amores da Casa de Tolerância e Saint Laurent). O filme se chama Nocturama e aborda um grupo de jovens de esquerda que colocam bombas em Paris. São jovens que não percebem muito bem o que estão fazendo, inconsequentes que começam a perceber que fizeram algo muito errado e começam a perceber a gravidade de seus atos. É quando o filme começa a ser algo que se passa entre quatro paredes.  Esse roteiro foi escrito antes de todos os atentados e se chamava antes Paris é uma Festa, mas precisou ter seu título modificado.

Os Cowboys

(Les Cowboys, França, 2015) Direção: Thomas Bidegain. Com François Damiens, Finnegan Oldfield, John C. Reilly.


Por João Paulo Barreto

Os Cowboys, longa de estreia do diretor Thomas Bidegain, roteirista por trás do doloroso Ferrugem e Osso, de 2012, traz em seu título um curioso uso para a expressão que o batiza. Em uma clara alusão a Rastros de Ódio, a obra francesa atualiza questões como xenofobia e racismo para um contexto do século XXI. No entanto, aqui, substituem-se os comanches por muçulmanos extremistas e o sequestro físico e forçado pelo intelectual e religioso. Ao invés de índios a observar de cima das rochas do Monument Valley, extremista caminham em lajes enquanto enquadram seu alvo.  O resultado traz a mesma dor de John Wayne ao precisar resgatar a sobrinha, só que representada pelo pai vivido por François Damiens na busca pela filha, que deixa a França ao ser doutrinada pelo namorado mulçumano e convencida a participar de ataques 
terroristas.

Em sua construção, o filme apresenta diversos elementos que aludem ao estilo que seu título sugere. Porém, tais elementos não se relacionam à ambientação clássica que o espectador se acostumou a ver em westerns, mas se adéquam a um terror insano, representado pela inércia de um pai que percebe ter perdido a filha não somente de forma física, mas, bem antes disso, de forma sentimental, quando ela abdica de qualquer contato com a família por conta da fé cega na qual foi levada a acreditar. Junto ao filho George (Finnegan Oldfield), Alain (Damiens) passa a dedicar sua vida ao resgate da filha, a quem começa procurar através de pistas que vai seguindo através do contato com supostas células terroristas. Aos poucos, a dureza áspera que existe nos dois cowboys do título cede lugar ao desespero.

Derrocada física e psicológica: Alain, com o filho George, em busca de sua filha
A perda da filha mais velha se torna a derrocada de toda uma família. A dor da ausência transforma a figura austera e durona de Alain em pouco mais que uma sombra do que ele foi, algo que passa a influenciar, também, seu filho George, que se vê ligado à busca da irmã da mesma forma obcecada que o pai. Nesta rendição, o rapaz abre mão de sua juventude, passando a se dedicar integralmente à localização da irmã, algo que, curiosamente, o leva, a partir de acontecimentos trágicos, a construir sua própria vida, identidade e personalidade.

Trata-se de um filme cuja maior reflexão está na discussão acerca da xenofobia que ele oferece. Como em determinada cena, quando uma mulher, em solo francês, é espancada somente pelo fato de usar um hijab (espécie de xale) típico da mulher mulçumana. E quando, em um tempo no qual um cidadão assumidamente xenofóbico ocupa o maior cargo do executivo estadunidense, a reflexão oferecida por Os Cowboys ganha ainda mais força.

George conta com uma inesperada ajuda na sua busca
Aqui, vemos um título que alude a um gênero tipicamente americano referenciar uma obra na qual a reflexão vai justamente contra a corrente de ódio e separação preconizada pela política dominante atual. Não à toa, o único personagem americano do filme (vivido de forma soturna por um excelente John C. Reilly) trata-se de um oportunista mercenário que se infiltra na cultura mulçumana para facilitar seus interesses escusos. 

Nada mais próprio à função exercida por seu país desde muito tempo.

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Entrevista com Finnegan Oldfield

O ator durante a visita a São Paulo em 2016
Finnegan Oldfield esteve no Brasil em 2016, ocasião em que divulgou Os Cowboys durante o Festival Varilux de Cinema Francês, no Rio de Janeiro e São Paulo. Filme atual em relação à situação do Estado Islâmico e a adesão de jovens europeus à doutrina de terror preconizada pela organização, Os Cowboys, apesar de ter sua história centrada no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, traz uma reflexão precisa para o que acontece no velho continente (principalmente na França) nos últimos anos.

Sobre esses aspectos da obra e outros assuntos, Finnegan Oldfield conversou com o blog Película Virtual.

OS COWBOYS ME REMETEU EM DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS AO CLÁSSICO DE JOHN FORD, RASTROS DE ÓDIO.

Sim, há diversas semelhantes. Mesmo não sendo uma refilmagem e eu não tendo utilizado o Rastros de Ódio em minha pesquisa, Thomas (Bidegan, diretor) me mostrou outros filmes na construção de Os Cowboys, como Cidade das Ilusões (Fat City), de John Huston, que não chega a ser um western, mas é uma obra que aborda a transmissão de uma pessoa para outra. É disso que fala o filme, mas utilizando todo esse viés e os códigos todos dos filmes de faroeste. Foi exatamente isso que ele quis fazer. Utilizando essa referência nos filmes de faroeste, como o uso dos planos abertos de montanhas e paisagens, por exemplo. Como no momento em que ele está fumando um cachimbo da paz junto aos talibans, em outra cena vemos pessoas a emboscá-los de cima de um prédio como se fossem índios nos desfiladeiros. A partir de um certo momento, o filme passa a ser um faroeste, principalmente quando já o vemos com seu revolver em punho e na cintura.

SEU PERSONAGEM NO FILME É BEM SOLITÁRIO. COMO SE DEU A SUA CONSTRUÇÃO?

Eu li muitas vezes o roteiro. Foram muitas conversas com o Thomas (Bidegain) sobre a personagem e suas ideias de como ele queria que esse adolescente se transformasse em um homem, em um cowboy. E isso foi muito interessante para o trabalho de ator e foi um desafio que eu encontrei para fazer esse papel.

A FRANÇA VEM PASSANDO POR UM PERÍODO CONTURBADO EM RELAÇÃO À POLÍTICA E A GUERRA CONTRA O EXTREMISMO DE ORIGEM RELIGIOSA. COMO FOI ABORDAR ESSE TEMA NO FILME?

Curiosamente, no caso de Os Cowboys, o filme foi feito antes dos atentados ao Charlie Hebbo, antes dos atentados de novembro de 2015. Isso o torna um filme ainda mais atual. Outros diretores realizaram trabalhos com temas relacionados e acabaram pagando o preço de não ver suas obras sendo lançadas por conta do contexto. Os Cowboys foi lançado na França em 15 de novembro de 2015, dois dias após os atentados. A dúvida que surgiu na época foi na possibilidade de lançá-lo ou não. Decidimos levar adiante a data justamente para não deixar que o terrorismo começasse a dar as ordens no cinema. Eu concordo com o Thomas Bidegain (diretor de Os Cowboys) quando ele diz que é preferível assistir a uma obra como essa do que aos noticiários que ficam mostrando sem parar esse assunto. É preferível ver um filme como esse do que os canais de notícias que exibem sem parar imagens dos atentados sem se aprofundar nos fatos. Concordo que a gente tem que estar informado sobre o que acontece, mas os filmes possuem uma outra maneira de contar a história.



EXATAMENTE. INCLUSIVE, ACHO QUE O FILME TEVE UMA CORAGEM IMPRESSIONANTE DE ABORDAR UM TEMA TÃO DELICADO QUANTO A PRESENÇA DE CÉLULAS TERRORISTAS NA FRANÇA. E ISSO JUSTAMENTE NA ÉPOCA DOS ATAQUES EM PARIS.

Foi complicado. Podemos dizer que esses fatos acabaram nos alcançando. A realidade alcançou a ficção do filme. Quando fomos filmar na Índia, todos nos diziam para ter cuidado por conta de riscos de terroristas e, enquanto nós estávamos lá filmando, os atentados ao Charlie Hebdo aconteceram. Bem ali, no centro de Paris. E decidimos continuar filmando. E essa foi a mesma atitude quando chegou a hora de lançar o longa

QUAL A SUA POSIÇÃO COMO CIDADÃO FRANCÊS DIANTE DESTE MOMENTO? É POSSÍVEL UMA COMPARAÇÃO COM A POSTURA DOS ESTADUNIDENSES APÓS O 11 DE SETEMBRO?

É uma difícil comparação por conta da diferença de escalas dos acontecimentos em relação a França e aos EUA. A nossa vida passou a ser pontuada por atentados. A gente lembra do 11 de setembro, dos atentados a Londres, a Madrid, ao Charlie Hebdo. E, ao mesmo tempo, estamos distantes disso tudo. É um pouco disso que o filme fala, também. No filme, quando o personagem vê na TV as torres gêmeas em chamas, ele se sente como se recebesse um cartão postal da irmã pedindo por ajuda. E a gente na consegue entender o que significa  enquanto não vivemos isso na casa da gente.

O FILME ABORDA UMA QUESTÃO DELICADA QUE É A SEDUÇÃO DO ESTADO ISLÂMICO PARA COM JOVENS ÁRABES E EUROPEUS. GEROU CONTROVÉRSIAS NA OCASIÃO DO LANÇAMENTO E PRODUÇÃO. DO MESMO MODO, ELE ABORDA PONTOS RELACIONADOS A PRECONCEITOS, RACISMO E XENOFOBIA. COMO SE DEU ESSA ABORDAGEM DO ROTEIRO?

O filme, na verdade, apresenta uma questão da emancipação dessa jovem. Talvez, se ele se passasse em outra época, como os anos 1980, ela talvez tivesse seguido para outro lugar, como Londres, morar em um cubículo e ficar se drogando. E a historia começa antes disso, em 1997, quando ainda não era comum que os jovens se juntassem ao Estado Islâmico. No fundo, é uma história sobre pessoas comuns que vão se sentir aspiradas por essa agitação e confusão que acontece no mundo. Em relação ao racismo, é verdade que o pai é bem aquela figura francesa que tem aquela postura xenofóbica e alguns comentários racistas acerca de imigrantes. Na metáfora do filme, o pai acaba considerando que essas pessoas sejam como os índios. Já o filho, não. Ele passa a ver os estrangeiros de uma maneira muito mais aberta. E isso é o que fará dele um cowboy, um herói. O Thomas queria fazer um filme sobre essa abertura de espírito. Sobre a mistura de raças. Sobre como é possível aprender as lições dos seus ancestrais e de como o conhecimento passa de uma geração para outra.



EM SEUS FILMES ANTERIORES, HÁ UMA CONSTANTE ABORDAGEM DE CUNHO SEXUAL. COMO SE DERAM ESSAS ESCOLHAS?

Não cheguei a ver muitos filmes franceses com temáticas sexuais e não há muitos que sigam essa vertente. Em relação às minhas escolhas, são temas interessantes. Por isso eu aceitei fazer esses filmes. Para Mineurs 27, o que me interessou foi como uma pessoa consegue crescer tendo sido vitima de abusos, como ela consegue superar isso. Bang Gang seguiu o mesmo questionamento de como os jovens vivem essa liberdade sexual e experiências nas quais eles podem erra e em seguida se corrigir e superar tudo isso. Principalmente a visão que as outras pessoas têm disso em tempos nos quais as redes sociais são tão ativas.

QUAIS SÃO OS SEUS PRÓXIMOS PROJETOS?

Já estou com um novo filme pronto, dirigido por Bertrand Bonello (diretor de Os Amores da Casa de Tolerância e Saint Laurent). O filme se chama Nocturama e aborda um grupo de jovens de esquerda que colocam bombas em Paris. São jovens que não percebem muito bem o que estão fazendo, inconsequentes que começam a perceber que fizeram algo muito errado e começam a perceber a gravidade de seus atos. É quando o filme começa a ser algo que se passa entre quatro paredes.  Esse roteiro foi escrito antes de todos os atentados e se chamava antes Paris é uma Festa, mas precisou ter seu título modificado.

Entrevista: Paula Gomes - diretora de Jonas e o Circo sem Lona



Jonas e o Circo Sem Lona é daqueles tipos de filme que ficam com você. Eu o assisti em setembro de 2016, durante a projeção do Cachoeira Doc. Foi exibido no último dia do festival, na décima mostra competitiva. Lembro-me que, durante a cobertura da mostra, escrevi sobre todas as nove competitivas. Fiquei devendo a Paula Gomes um texto acerca de seu filme. Mas não porque não quis fazê-lo, mas, sim, pelo fato de que o impacto do longa, após uma semana intensa de festival, foi por demais intenso. Precisei parar para refletir sobre o filme mais a fundo. Durante a correria da curadoria do Panorama Internacional Coisa de Cinema, não consegui rever o filme, muito menos escrever sobre ele. Mas, volta e meia, voltava a pensar naquela história. Jonas e o Circo sem Lona tem esse poder. É um filme que acompanha o espectador após o término da sessão. Digo isso não somente como um clichê para florear um texto crítico, mas por perceber a identificação que ele gerou. Na infância, muitos sonhos nos motiva. Muitos planos nos frustram. Ao crescer, a nostalgia acaba por nos invadir e, às vezes, machucar. O registro da rotina do pequeno Jonas pelo olhar atento de Paula me fez refletir acerca das escolhas que fazemos e como elas nos acompanham por toda a vida. Para o bem ou para mal (ops, mais um clichê). Perceber que Jonas escolheu bem seu futuro, resolvendo seguir aquilo que realmente o motivava, nos incentiva a seguir passos semelhantes. “Não tem como não ser Jonas e não se identificar neste sentido dos desafios e do que você escolheu para você. Como eu estou conseguindo manter meu sonho vivo, o filme, ao mesmo tempo, é um ato de desejar que ele, Jonas, consiga também. E ele está conseguindo. E isso é muito bom”, afirma Paula Gomes em um dos trechos desse papo.  De fato, não tem como não ser Jonas.

Confira abaixo a conversa na íntegra.

PAULA, APÓS VÁRIOS FESTIVAIS, O FILME FINALMENTE CHEGA AO CIRCUITO COMERCIAL E AO PÚBLICO GERAL. QUAL A SENSAÇÃO?

É uma emoção enorme. A gente fica muito feliz por vários motivos. Porque a caminhada foi longa, foi difícil, mas, também, porque a gente sabe que o nosso problema ainda é essa parte da cadeia. A parte da distribuição. No drama da produção, a gente meio que conseguiu ter um fluxo de uns anos para cá. Com todas as políticas, com a forma como a gente aprendeu a fazer. Então, estrear comercialmente nos deixa realmente muito felizes. Também pela trajetória do filme, porque ele vai poder chegar em vários lugares. São vinte cidades no Brasil. A gente está muito emocionado com isso. E esperamos que as pessoas possam assistir, possam dividir um pouco dessa história com a gente.

VOCÊ ENCERRA UM CICLO. TERMINA A CORRERIA COM FESTIVAIS E ENTRA NO CONTATO COM O PÚBLICO GERAL. VOCÊ TOCOU NO PONTO QUE A DISTRIBUIÇÃO FOI UM DOS PONTOS MAIS DIFÍCEIS EM TUDO ISSO. QUAIS FORAM OS PARCEIROS DE DISTRIBUIÇÃO?

O filme está sendo distribuído pela Vitrine Filmes, através de um projeto que eles têm chamado Sessão Vitrine Petrobras. Um projeto muito bacana que reuniu mais ou menos vinte filmes brasileiros que tiveram destaque no ano passado em festivais. Filmes que foram premiados. Então, eu acho que ir de grupo, ir de galera (risos) fortalece todos os filmes. Eles são lançados um de cada vez neste circuito de vinte cidades. Isso é muito legal.

Paula, Jonas e parte da equipe da Plano 3 Filmes
VOCÊ ACERTA AO FUGIR DE UM FORMATO CONVENCIONAL DE DOCUMENTÁRIOS, ALGO QUE JÁ É BEM BATIDO NO USO DE CABEÇAS FALANTES. VOCÊ, NO ENTANTO, PREFERE ABORDAR A HISTÓRIA DO JONAS DENTRO DA SUA ROTINA, DENTRO DA SUA REALIDADE. COMO FOI ESSE PROCESSO DE ESCOLHA?

Então, eu acho que o filme se encaixa muito bem em um gênero que é o documentário de criação,que ainda não é tão popular aqui no Brasil. No filme, a gente opta por trabalhar muito com o encontro. O documentário ele acontece não porque existe um objeto, mas porque existe um objeto e um sujeito. E em algum momento esses dois se encontraram, as histórias se cruzaram, e, por algum tipo de gesto, de amor, de ódio, do que for, a gente decide viver uma história juntos. Então, a partir do momento em que a gente encara o filme como um documentário de criação, muita coisa fica para trás. Uma suposta objetividade, uma imparcialidade, que a gente sabe que não existe. Eu estou pessoalmente interessada em fazer filmes onde eu esteja envolvida, sabe? Onde muito claramente há um ponto de vista. Onde muito claramente há uma interferência. O filme trabalha isso de uma forma muito honesta. Porque esse era o pacto com Jonas. Porque esse era o pacto com os personagens. Então, a gente entra para viver essa aventura juntos, que a gente não sabe como vai terminar, mas sabe o ponto de partida. Conhece os conflitos que podem surgir, porque foi feito uma pesquisa antes. O Jonas trabalha muito por essa linha. Eu acho sempre mais honesto, mais bacana. Acho até filmicamente mais interessante que quando a gente vá fazer um doc, possamos assumir a equipe. Assumir a interferência. Porque aquela história só aconteceu naquele tempo e naquele espaço daquela forma porque estávamos filmando. Se a gente não estivesse ali, era outra história. Então, nada mais honesto que possamos compartilhar o processo, também.

HÁ UMA CUMPLICIDADE BEM BONITA ENTRE VOCÊ E O JONAS. O FINAL EU ACHO DE UMA BELEZA ÍMPAR.

Sim, existe uma cumplicidade muito forte. Eu conheço o Jonas há muitos anos. Minha relação com a família dele tem dez anos. Desde que eu conheci a mãe dele, fiquei muito próxima.


COMO FOI QUE VOCÊ DESCOBRIU O JONAS?

Há dez anos, a gente ia filmar um curta de ficção junto com o meu coletivo (N.E. O coletivo Plano 3 Filmes). E o curta tinha ver a ver com o universo do circo. E todo mundo perguntava para gente: “Ah, vocês vão fazer um curta felliniano?” E a gente começou a descobrir que tinha uma visão do circo muito presa a Fellini. Muito presa a um universo mais fantástico e a gente queria retratar um circo mais real, nordestino, mais da gente. E aí entramos no carro e viajamos para pesquisar. Íamos visitar três circos em um final de semana. Meio que procurando locações, procurando informações. E foi tão incrível que essa viagem de três circos em um final de semana virou três meses e trinta e cinco circos pesquisados. Na época, eu escrevi muito. Pelo fato de eu reunir muito material, acabei sendo convidada a assumir o Núcleo de Artes Circenses aqui da Secretaria de Cultura. E a família de Jonas morava em um desses circos que  eu visitei. Foi quando conheci a família dele, acompanhei quando eles deixaram o circo e se estabeleceram na Região Metropolitana de Salvador. De certa forma, eu vinha acompanhando o crescimento de Jonas. Até que um dia ele me liga e fala: “Olha, eu tenho uma novidade. Agora eu sou dono de circo. Tenho meu próprio circo e queria te convidar para assistir ao espetáculo.” Aí eu  fui com os meninos do coletivo à casa dele e, nos fundos, tinha um circo armado que ele construiu com o que sobrou desse antigo circo da família. Aquelas arquibancadas velhas, pedaços de lona, uns figurinos. Quando eu cheguei, fiquei muito encantada e já senti que naquele quintal ali tinha um filme. Só não sabia ainda qual era esse filme. Isso eu só descobri depois. Mas tive imediatamente essa sensação de que havia uma história muito legal ali.

HÁ UMA RIMA INTERESSANTE AO OBSERVARMOS O JONAS COMO UM ARTISTA LIBERTÁRIO AO FAZERMOS UMA COMPARAÇÃO DELE COM OS ARTISTAS ORIUNDOS DO AUDIOVISUAL BRASILEIRO E, PRINCIPALMENTE, BAIANO. O MODO COMO ELE É REGRADO PELAS AUTORIDADES DE SUA FAMÍLIA E ESCOLA, QUE TENTAM IMPEDI-LO DE SEGUIR SUA ARTE. VOCÊ TEM ESSA IMPRESSÃO, TAMBÉM? 

Tenho, sim. Eu tenho, sobretudo, uma identificação muito profunda com ele. Com a sua história. E me inspira muito no sentido que ele tinha um sonho que era o circo. Ele saiu do circo e conseguiu, sozinho, mantê-lo vivo, ali no quintal de sua casa. E isso não tem como não me inspirar. Porque é a mesmo no meu lugar, no cinema que eu faço. Aqui, eu também dependo, como eu falo no filme, dos meus amigos para fazer. Também é um sonho que sempre tem conflitos, que sempre tem obstáculos. A gente brinca aqui no coletivo que somos todos Jonas. Porque também somos esses meninos que sentavam no fundo da sala de aula. E que também eram cobrados dessa forma. E que até hoje, fazendo cinema em um mundo que te diz todos os dias: “seja médico, seja advogado, faça concurso, tenha um emprego.” Não tem como não ser Jonas e não se identificar neste sentido dos desafios e do que você escolheu para você. Como eu estou conseguindo manter meu sonho vivo, também, o filme, ao mesmo tempo, é um ato de desejar que ele, Jonas, consiga também. E ele está conseguindo. E isso é muito bom.


A CENA DO CONFLITO COM A DIRETORA DA ESCOLA DE JONAS FAZ AQUELE SERMÃO É BEM SIMBÓLICA NESTE SENTIDO.

Sim. O tempo todo a gente enfrentava algum conflito. Porque como a gente estava na escola todos os dias, nós viramos os intermediários. O Jonas aprontava muito. Então, toda vez que isso acontecia, ao invés de ligar para a mãe dele, a diretora ligava para mim, porque eu estava ali, mais próxima. E estes conflitos, ao invés de nos afastar, nos aproximaram muito da dela. Porque ela estava dentro de uma lógica que eu, naquele momento, não concordava, mas que eu conseguia entender. Porque também é muito difícil para o professor, dentro do sistema em que ele está, ser o único individuo que enxerga, que não quer castrar, que quer libertar. Então, também, é difícil quando você entende o sistema inteiro. Foi uma surpresa muito gratificante. Porque a gente filmou muito tempo. Foram dois anos. Quando terminamos, dois anos e pouco depois que tínhamos começado, os personagens já não eram mais os mesmos. Todo mundo tinha amadurecido. Todo mundo tinha um ponto de vista diferente. E teve um dia que ela falou para mim que ela percebia naquele momento, naquele tempo ali, que não só Jonas era ruim para a escola. Mas que, também, a escola era ruim para Jonas. E isso foi maravilhoso. Porque Jonas se transformou, ela se transformou, a gente se transformou. Foi um filme muito intenso e muito transformador para todo mundo.

QUAL É O PRÓXIMO PROJETO AGORA, PAULA?

A gente acabou de filmar um longa de ficção chamado Filho de Boi. É do nosso coletivo. Neste, eu sou produtora e co-roteirista, porque a gente se alterna nas funções. E quem dirige é o Haroldo (Borges) e o Ernesto (Molinero). Filmamos no sertão da Bahia, um processo que foi muito modificado depois de Jonas. É um roteiro mais antigo. Mas depois filmamos Jonas, transformamos o projeto inteiro. A gente está muito apaixonada pelo documentário e buscamos ferramentas para deixar essa ficção com um perfil mais relacionado com documentário. Por exemplo, optamos trabalhar com não atores. Fizemos uma pesquisa enorme para encontrar o protagonista. Entrevistamos 1500 meninos, todos do sertão da Bahia, todos de escola pública e moradores de áreas rurais. E trabalhamos com Fátima Toledo (conceituada preparadora de elenco que se destacou em filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite). Fátima super topou o projeto. Ela veio e fez uma super preparação neste sentido. E o mais legal é que o Jonas fez o filme. Dessa vez, como ator. E também aprendendo uma nova função. Ele quer fazer Cinema após terminar seu último ano da escola. Ano que vem quer fazer vestibular para Cinema. Aqui, ele quis aprender mais e trabalhou, também, como segundo assistente de câmera.

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Jonas e o Circo sem Lona (Brasil, 2016) Direção: Paula Gomes. Com Jonas Laborda.


Por João Paulo Barreto

Em seu último momento, Jonas e o Circo sem Lona traz uma pergunta feita pelo pequeno protagonista à diretora Paula Gomes: “O final do meu filme vai ser assim, triste?” Ao ouvi-lo, Paula lhe concede um cafuné e uma resposta confortadora: “Esse é o final desse filme, não do seu filme.” Um carinho que denota justamente a cumplicidade de projeto com o seu sujeito de análise. E durante os breves 81 minutos de projeção, é justamente perante a isso que o público se vê. A construção precisa de um personagem de um modo em que a equipe de produção se insere naquele ambiente. Ao subir dos créditos, percebemos ter estado diante de um documentário de criação no qual as barreiras que separam Jonas de seu destino nos são apresentadas, mas é justamente o superar delas o principal intento a ser demonstrado aqui.

Existe uma identificação plena do espectador com Jonas. A câmera de Gomes nos coloca dentro do dia-a-dia do garoto. Convida-nos a participar de sua rotina de férias escolares, quando decide montar um circo no quintal de sua casa. Um circo feito com material oriundo do antigo local onde sua família viveu, e onde sua mãe, que naturalmente se preocupa com o fato de que dedicação do filho é grande com o espetáculo e não tanto com a escola, trabalhou durante a juventude. Não que ela imponha sua vontade de modo ditatorial. O que acontece aqui é o receio natural de pais pelo futuro de seus rebentos. E para ela, o circo não trará nenhum para o seu garoto. Jonas, no entanto, possui aquela arte em seus genes. Algo do qual ele não foge, sendo aquilo o que realmente o move.
  
Jonas e sua mãe: conflitos e a natural preocupação materna
O esmero do olhar de Paula Gomes ao registrar toda a trajetória do menino Jonas é notável.  Desde a não adaptação a uma escola que o restringe de sua paixão, demonstrando um modelo educacional falho, cujas prioridades, claro, são determinadas pelo mercado de trabalho (o momento em que a diretora da escola se queixa perante a câmera é um achado para o filme), passando pelas experiências marcantes daquela fase, como paqueras e o primeiro beijo, o registro tanto das alegrias quanto das frustrações do rapazinho trazem para o longa metragem um equilíbrio essencial. Isso é perceptível, também, pela opção em não se render ao romantizar da arte circense. A discussão oferecida em Jonas e o Circo sem Lona não visa fantasiar com escapismos lúdicos oriundos daquela arte. Mas, claro, isso não significa dizer que sua magia não se faz presente. No entanto, tal percepção é destinada ao espectador, sem a necessidade que a narrativa venha lhe impor. O que percebemos é o contar de uma história na qual os percalços da infância são colocados em evidência. 

Jonas e o local onde consegue se encontrar
Trata-se de uma fase de descobertas. Uma fase na qual a percepção de uma vocação se fez presente. Jonas se entrega àquilo com tudo o que pode. Seu interesse não é fugaz. Não se trata de algo que logo será suplantado por outra coisa. Seu foco é perceptível. Enquanto outros de sua trupe logo se vêem diante de cobranças e interesses que os fazem se distanciar daquela diversão, para Jonas aquilo é algo que se situa em outro patamar de prioridades. Talvez por isso a decepção o atinja de modo tão doloroso. E, por consequência, ao espectador. E nisso está mais um acerto de Paula Gomes e de seu coletivo no entregar de sua história. Ao atingir o público de modo tão certeiro, ela nos coloca diante do anseio do pequeno Jonas. E o sentimento passa a ser compartilhado. Poucos filmes conseguem esse intento. Jonas e o Circo sem Lona, felizmente e dolorosamente, é um deles.


É para esse tipo de entrega que o cinema existe.