segunda-feira, 6 de março de 2017

Logan

(EUA, 2017) Direção: James Mangold. Com Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Stephen Merchant.


Por João Paulo Barreto

Em seu maior mérito, Logan traz o fato de não se tratar de um longa padrão de super-herói. Aqui, nada de atos de bravura vazios, poses ou canções idílicas para embalar atitudes. Não. A questão em Logan é a sobrevivência de um homem que busca sua própria paz de espírito. Distante de qualquer invulnerabilidade que o seu fator de cura poderia trazer, algo que torna sua trajetória final muito mais de acordo com os traços de humanidade que ele ainda possui do que com o gene mutante que lhe deu longevidade. Humanidade essa que ele busca abraçar, mas que a selvageria contida em sua natureza não tarda a suplantar.

É um trabalho sobre perda. Sobre dor. Sobre arrependimentos. Sobre a reflexão que a maturidade e as limitações da velhice trazem. No futurista ano de 2029, época tecnológica que a produção soube retratar com sutileza ao inserir elementos representativos como máquinas em colheitas e carretas que se locomovem sozinhas, o velho Logan se lamenta sobre as lápides dos antigos X-Men enquanto busca uma forma de cuidar do seu remanescente mentor, um agora nonagenário Charles Xavier, cuja mente poderosa se vê diante de limitações degenerativas que afetam, também, aqueles ao seu redor.

Um combalido Charles Xavier a lutar contra a degeneração de sua mente
Trata-se do primeiro filme a fazer justiça à profundidade do personagem oriundo dos quadrinhos da Marvel Comics. Tanto em sua selvageria quanto em sua dor interna. O Logan interpretado em tom de despedida por Hugh Jackman já não se locomove com facilidade, algo que o seu mancar e as costas curvadas confirmam. As marcas em seu corpo denotam uma cicatrização não tão eficiente quanto era na juventude e o retrair das garras não é mais fugaz. O acúmulo de toda dor do passado parece, de fato, ter encontrado um ponto de fadiga no mutante. Logan, aqui, quer desistir. E é justamente por percebermos isso que a trajetória do personagem nesta última incursão parece ser tão dolorosa emocionalmente. Trata-se de um homem que apenas busca seu refúgio. No entanto, não será tão fácil ou pacifico deixar aquele mundo para trás.

Como se percebendo o tempo perdido nas duas primeiras incursões solo do personagem no cinema, o diretor James Mangold não mediu esforços para exibir a violência gráfica que tanto fez falta nos filmes anteriores. Membros decepados, crânios perfurados e sangue. Muito sangue. Em certos momentos, têm-se a impressão de uma obra gore, algo que por demais era esperado em outras produções com o personagem, mas a classificação indicativa baixa não permitia. E para coroar essa opção pela violência relacionada ao personagem, mas (friso) sem nenhuma gratuidade, a inserção da pequena mutante X23, criada em laboratório a partir das mesmas características de Wolverine define a intenção de diferenciar esse novo trabalho de qualquer outra aparição mutante no cinema. O patamar agora é outro.

A pequena Laura antes de mostrar a que veio
Vivida pela estreante em longas metragens Dafne Keen (uma força da natureza), a figura infantil em sua brutalidade desmedida apresenta justamente aquilo que faltava em outros exemplares da franquia mutante. É este ponto que nos remete à fala de um personagem ausente, o mutante Magneto, que abordava em seu discurso o fato de que não há como haver paz na comunhão entre humanos e mutantes. A resposta dada sempre pelo pacifista Xavier não pareceu ser suficiente. O futuro apocalíptico e traumático que observamos em Logan deixou isso bem evidente.

Nas lágrimas de um Logan absorto em dor a explicar inutilmente a um ferido Charles que não havia sido ele a desferir o golpe mortal, o espectador também se combale diante de tamanha perda.  O final, como pudemos observar, era inevitável.

Obs.: Como se não bastasse vermos no trailer o uso soberbo da versão de Hurt, canção dilacerante na voz de Johnny Cash, o diretor James Mangold, apropriadamente se auto-referenciando, uma vez que dirigiu a ótima cinebiografia do cantor, encerra o longa com The Man Comes Around, também na voz de Cash. O homem de fato esteve por perto. E vai fazer falta.


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