quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Estranho que Nós Amamos

(The Beguiled, EUA, 2017) Direção: Sofia Coppola. Com Nicole Kidman, Colin Farrell, Kirsten Dunst, Ellen Fanning.


Por João Paulo Barreto

Ao escrever sobre o novo filme de Sofia Coppola, é inevitável não falar acerca da versão original dirigida por Don Siegel e estrelada por Clint Eastwood no começo da década de 1970. Em termos comparativos, apesar de hoje ser descrito por muitos como um filme que estereotipa suas personagens femininas, a obra comandada por Siegel representa bem sua época, tratando-se de um longa que se arriscava, permitindo ao espectador não somente penetrar no terror do soldado que, ao tentar manipular um grupo de mulheres que lhe dá abrigo, acaba sendo vitima da própria arrogância, mas, também, perceber o modo como os traumas acumulados podem transformar vitimas em brutais sobreviventes.

Ao recriar a história, porém, Sofia Coppola parece ter medo de se arriscar do mesmo modo, preferindo ficar em um território seguro, no qual seu filme acaba não fazendo diferença alguma, uma vez que a mesma história já foi contada de forma muito mais eficiente décadas atrás. O que fica é o questionamento da razão de se refilmar algo se não haverá nenhum tipo de inovação. Aqui, sobra elegância e plástica, com exuberância na fotografia e figurino, mas a obra carece de um desenvolvimento mais profundo de seus personagens e de sua trama. Acaba se tornando manca, calcada em muletas, do mesmo modo que seu personagem masculino.  Com o perdão do clichê, a impressão que fica para o espectador é a de que são realmente caretas e conservadores os tempos que vivemos, uma vez que, enquanto o original ousava com subplots envolvendo incesto, contextualizava seu período escravocrata com o domínio branco sobre pessoas negras com a inserção de uma personagem afrodescendente entre o grupo de mulheres caucasianas, e até arriscava um beijo do personagem de Clint em uma garota de 13 anos. Aqui, nem mesmo a tão famosa cena da amputação é exibida, preferindo-se inserir uma deslocada elipse.

Farrell: Presença quase despercebida 
Deixando de desenvolver mais a fundo a personalidade manipuladora do personagem vivido por Colin Farrell, por exemplo, sua presença em cena quase passa despercebida, como um coadjuvante de luxo cujo drama doloroso não afeta em nada o espectador. Acabamos por não criar qualquer afinidade com o Cabo McBurney justamente por não sabermos, do começo ao final daqueles 90 minutos, quem é aquele homem. Apostando em uma suposta dubiedade de seu caráter, algo que não acrescenta em nada à trama, o filme o mantém envolto em um mistério jamais revelado acerca de quem foi aquele ianque na guerra civil americana e quais são suas reais intenções em meio às mulheres que lhe deram abrigo e curaram sua perna ferida a chumbo.

No entanto, em certo momento da projeção, ao se lembrar do suposto modo caricato como as mulheres na obra de Don Siegel são construídas, o espectador começa a perceber certa diferença positiva (ledo engano...) na recriação de Coppola para com seu grupo de protagonistas, uma vez que, pelo menos não tão abertamente, suas personagens femininas não cedem ao enquadramento, considerado por muitos, formulaico e previsível visto no longa de 1971. Curiosamente, é no filme de quarenta e cinco anos atrás que está o subplot abordando a relação incestuosa de uma das personagens, algo nada previsível e que acrescenta bastante profundidade à personagem, além de flashbacks que revelam o histórico de estupro existente na casa.

Kidman (Miss Martha) e o grupo de alunas do conservatório 
A percepção de diferenças na recriação feita por Coppola, porém, acaba caindo por terra quando notamos que as mesmas frágeis características estão presentes em na sua versão, sendo apenas suavizadas pelo roteiro escrito, também, pela diretora. Nicole Kidman, apesar de mais delicada que a Miss Martha vivida por Geraldine Page, até consegue dar certa profundidade aos dramas internos de sua personagem, denotando uma brutalidade escondida naquele semblante delicado, mas seria preferível trabalhar seus traumas de modo mais claro, o que, invariavelmente, geraria um desenvolvimento menos raso de sua figura no trama.

A impressão que fica é a de um vazio elegante, repleto de belas imagens, a começar por seu classudo pôster, mas que, ao final, deixa aquela sensação de picolé de chuchu, algo que já nos perguntamos diversas vezes no cinema, quando nos vemos diante de refilmagens tão desnecessárias.


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