quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Conduzindo Miss Daisy

   (Driving Miss Daisy, EUA, 1989). Direção: Bruce Beresford.   Com Morgan Freeman, Jessica Tandy e      Dan Aykroyd




     O filme de Bruce Beresford utiliza a amizade entre dois idosos como metáfora para a discussão inter-racial nos Estados Unidos da primeira metade do século passado. Daisy Werthan (Jessica Tandy, no papel que lhe rendeu um Oscar) é uma bem sucedida professora aposentada que, apesar da idade, ainda mantém certo grau de independência ao dispensar a necessidade de um chofer para seus afazeres diários. Após um pequeno acidente ao deixar a garagem de sua casa, Miss Daisy perde a cobertura da seguradora de veículos e passa a contar com a presença de Hoke Colburn (Freeman) para levá-la aos lugares que ela freqüenta. O contrato do motorista é feito com o dedicado filho da senhora, Boolie Werthan (Aykroyd), o simpático dono de uma tecelagem local. Apesar do já previsível conflito-seguido-de-amizade do roteiro, a história da relação entre Daisy e Hoke encanta justamente por fugir das armadilhas dramáticas que o filme poderia cair.

Aikroyd e Tandy atencioso e paciente com a mãe,
Boolie contrata um motorista que acaba se tornando o único amigo dela

       De forma inteligente, o roteirista Alfred Uhry, a partir de uma peça de sua própria autoria, une a evolução da amizade dos dois protagonistas com os sentimentos de exclusão social que ambos sentem. Daisy é judia, e apesar de notoriamente bem sucedida na vida, faz questão de afirmar não ser rica. De que não gosta de esbanjar dinheiro. Hoke, além de idoso, pobre e analfabeto, não tem a cor de sua pele a seu favor no período político-social em que seu país vive. Em uma cena, dois policiais brancos o abordam. Chamando-o pejorativamente de garoto, eles perguntam o que ele faz com um carro daqueles. Ao checar os documentos de Miss Daisy e de Hoke, liberam os dois sob comentários do tipo “era só o que faltava. Um crioulo velho e uma judia velha na estrada”. O que poderia ser levado de forma maniqueísta pelo filme, é inserido de modo coerente.  

Amor fraterno não tarda a sobrepor o orgulho de Miss Daisy

       O contexto histórico do filme colabora para um melhor entendimento das relações entre brancos e negros que o roteiro apresenta. Observa-se durante vários momentos uma demonstração da autoridade dos patrões brancos sobre seus empregados domésticos negros. No entanto, o filme não se apega a isso de modo a antagonizar personagens. Ele prefere utilizar tais relações de modo a ilustrar o período em que se passa a história. Observe, logo na primeira cena, o momento em que uma senhora branca repreende dois de seus funcionários negros mandando-os parar de observar o acidente e voltarem ao trabalho. Em um período vergonhoso da história americana, quando negros eram proibidos de usar banheiros em locais públicos e de dividir o mesmo espaço que os brancos no transporte coletivo, a amizade entre Hoke e Daisy mostra que a relação entre patrão e funcionário pode evoluir para uma cumplicidade que apenas a solidão da terceira idade pode ilustrar.

A solidão da terceira idade é retratada de forma sublime
     Morgan Freeman apresenta uma atuação que, apesar de um tanto caricata, diverte com um autêntico sotaque sulista estadunidense e um riso que acaba virando uma marca do personagem. Jessica Tandy arrasa em uma atuação contida que permite ao espectador entender o que o peso da idade causa à personalidade e ao estado físico das pessoas. A última cena demonstra perfeitamente como a cumplicidade, adquirida em anos de uma amizade que se descobriu mais forte que qualquer laço familiar, pode tornar as pessoas tão unidas. Nota 9,0 

2 comentários:

  1. Um filme fantastico de uma delicadeza ímpar, visto e revisto várias vezes por mim.
    Excelente critica, parabens.

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  2. Fato, Dandara. Realmente para ser visto e revisto. A delicadeza desse longa é palpável. Sem contar o carisma da saudosa Jessica Tandy.

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