terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Homem das Multidões

(Brasil, 2012) Direção: Marcelo Gomes e Cao Guimarães. Com Paulo André e Silvia Lourenço.



Por João Paulo Barreto

A solidão é o que move os personagens de O Homem das Multidões. De forma paradoxal ao seu título, Juvenal, seu protagonista, não faz parte de nenhum vasto universo de pessoas. Vive solitário em sua rotina de operador de trem, observando estações passarem estagnadas adiante do mesmo modo que sua vida segue, paradoxalmente, inerte e em frente.

Introspectivo e sem traquejo social, não tem muita naturalidade para conversar com colegas de trabalho, mantendo-se em silêncio durante horários de almoço e sem conseguir dizer não a um interesseiro que insiste em pedir-lhe uma constante troca de turno. Pragueja sobre isso, em casa, ao tentar realizar uma faxina que parece nunca tornar aquele ambiente menos sujo. Mas nunca cria a coragem para dizer o não necessário para se afirmar.

Sua visão de mundo se altera um pouco ao conhecer Margô, a coordenadora de trafego que controla sua linha. No entanto, qualquer esperança que nutra no sentido de tê-la torna-se apenas um devaneio diário. Noiva e sem o mesmo traquejo social que falta a ele, ela derruba qualquer pretensão romântica sua ao convidá-lo para ser seu padrinho de casamento sob o pretexto de não conhecer ninguém a quem fazer o mesmo pedido. Claro, Juvenal ensaia sozinho uma negação ao pedido, mas, pouco tempo depois, lá está ele, alugando um terno para a ocasião e trocando o par de sapatos sociais pelos calçados do dia-a-dia de trabalho, numa brilhante alusão a sua condição dependente ao seu meio de vida. 

Juvenal em seu apartamento: solidão e desajuste
O Homem das Multidões é um filme que trata de desajustados. Pessoas que passam pelo mundo sem qualquer intenção de desafiá-lo, seguindo apenas as horas do dia ou sendo empurradas por elas. Juvenal ainda tenta ter uma vida, pelo menos algo que, em sua visão, o distraia com algum norte. Mesmo que isso signifique visitas a prostíbulos, exercícios físicos por conta de um possível interesse de Margô, e caminhadas a esmo por shoppings, subindo escadas rolantes para, logo em seguida, descê-las.   

Margô, ao passar seus dias a observar apenas os monitores de segurança, encontra em Juvenal alguém com quem compartilha seu silêncio e introspecção, apesar dos breves desabafos relacionados ao trabalho. E é tocante como ela se identifica com o desajuste deste, presenteando-o com copos novos quando este não podia lhe servir água por  possuir somente um em casa, ocasião em que aceita de bom grado beber direto da garrafa.  

Margô e Juvenal: silêncio confortável
Contemplativa e pausada, é uma obra que desafia o espectador e, ao mesmo tempo, o prende, cativando-o com uma história simples, mas que, apresentando personagens tão extraordinariamente comuns, acaba por se tornar de uma profundidade impar.

Em uma atualidade tão repleta de meios urgentes e fugazes de comunicação, o silêncio atencioso entre duas pessoas em um ambiente tende a se tornar, de fato, deslocado. Aqui, a naturalidade como isso se apresenta é que o classifica como imprescindível para duas pessoas que só encontram algum conforto quando estão na presença silenciosa e mútua.        


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