sábado, 20 de outubro de 2012

Mostra Itinerante Jorge Cine Amado

Por João Paulo Barreto



Difícil tentar explicar o quão gratificante é poder falar sobre a obra de Jorge Amado para adolescentes das cidades do interior da Bahia, terra tão carente e desprovida de incentivos literários. Melhor ainda é poder ilustrar essa mesma obra com os ótimos filmes que foram feitos com base nos textos do gênio baiano. Com uma curadoria organizada pela neta de Jorge, a cineasta Cecília Amado, esse projeto teve início no dia 9 de outubro em Porto Seguro e se estenderá até o dia 10 de dezembro. Nesses dois meses, serão visitadas 15 cidades da Bahia nas quais os filmes Capitães da Areia, Tieta do Agreste, Quincas Berro D´Água, Dona Flor e Seus Dois Maridos e os documentários Jorge Amado e Jorjamado no Cinema, dirigidos por João Moreira Sales e Glauber Rocha, respectivamente, serão exibidos.  O intuito é compor um diálogo acerca da identidade do povo brasileiro através das ideias do escritor que sempre defendeu a miscigenação como a solução para o fim do preconceito e do racismo.

Em Lençóis, no Centro de Cultura Afrânio Peixoto, tive contato com adolescentes e adultos que, interessados em se aprofundar um pouco mais na mitologia baiana proposta por Jorge, assistiram ao longas Capitães da Areia, filme de 2011 dirigido por Cecília Amado, e Quincas Berro D’Água, excelente adaptação dirigida pelo cineasta Sergio Machado e estrelada por Paulo José, Frank Menezes, Luiz Miranda e Irandhir Santos. Além desses dois longas, o documentário de João Moreira Sales fechou a programação em Lençóis causando reflexão acerca da militância política do começo da carreira de Jorge, quando este era vinculado ao partido comunista e quanto à sua preocupação no que tange à identidade do povo brasileiro e suas mais variadas etnias. Para Jorge, o racismo no Brasil só terminaria quando todos nós nos reconhecêssemos como um povo miscigenado e não enxergássemos isso como um fator negativo, mas, sim, como uma junção dos diversos pontos de qualidade que nos fazem uma nação.

Auditório do Centro de Cultura Afrânio Peixoto (Lençóis-BA)
O documentário de João Moreira Sales é, de fato, a mais importante das obras exibidas nessa mostra. Ao ilustrar o pensamento retrogrado do começo do século XX, ocasião em que intelectuais como Sylvio Romero, Nina Rodrigues e Tobias Barreto defendiam abertamente a política de não miscigenação sob o pretexto absurdo de que a mistura seria “um fator de degeneração”. Isso vindo de um professor de medicina (Nina Rodrigues) cuja origem familiar era mestiça. A possibilidade de diálogo que essa obra trouxe ao evento foi o ponto alto da noite, uma vez que a plateia, composta em sua maioria por afrodescendentes, pôde perceber a importância da valorização da sua identidade étnica e cultural, algo que Jorge Amado sempre colocou como primordial em seus escritos.

Além desses fatores oriundos das questões raciais, a fase comunista de Jorge pôde ser melhor aprofundada na conversa com os presentes, buscando trazer para um papo mais acessível questões delicadas como posturas políticas retrogradas oriundas de regimes militares. Sendo Amado um stalinista durante seus primeiros anos como escritor, uma das melhores partes do doc está no momento em que o escritor admite ter passado a renegar o partido comunista quando descobriu as barbaridades do regime soviético. Fechando com a frase “ideologia é uma merda”, Jorge torna clara sua nova postura em relação a essa fase de sua vida.

Ao final, a mensagem de valorização da obra desse baiano junto às novas gerações pôde ser passada. Se apenas uma minoria presente na noite do dia 20 de outubro de 2012 percebeu isso, já teremos cumprido nossa missão.

Agradeço ao caríssimo Aurélio Laborda Neto, cujo suporte e presença local na produção do evento tornou tudo muito mais fácil.

Também meus agradecimentos a Caco Monteiro pela idealização e a João Carlos Sampaio pelo convite. 


6 comentários:

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    1. E que essa luta continue, Aurélio. A causa é nobre! Abraço!

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  2. Caro João Paulo, em primeiro lugar gostaria de agradecer a sua participaçnao no Projeto Jorge Cine Amado, e dizer que o seu texto reflete exatamente o nosso objetivo que é levar a discussão da relevancia da obra literária do Jorge Amado através da linguagem cinematográfica para uma platéia de adolescentes de cidades do inetrior da Bahia. Creio que o recado foi dado em Lençóis, como foi tambeem em Porto seguro e Itabuna, cidades onde a mostra passou. E vamos em frete. Grande abraço e obrigado mais uma vez! Caco Monteiro

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    1. Obrigado, Caco. Bacana a experiência. Espero repeti-la em outros projetos. Até a próxima e um grande abraço!

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  3. Muito bom, João... Adorei o depoimento, me deixa ainda mais ansiosa por minha vez... E Viva a Jorge!

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    1. Mandinha, essa ansiedade eu estava sentindo desde Porto Seguro, quando assisti a palestra do João Carlos Sampaio. A partir dali, fiquei mais tranquilo quando percebi o formato de bate papo e interação com a plateia que poderia ser adotado.

      Você vai arrasar!

      Beijão e, sim, VIVA JORGE!

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