quarta-feira, 12 de abril de 2017

Una

(Reino Unido, 2016) Direção: Benedict Andrews. Com Rooney Mara, Ben Mendelsohn, Riz Ahmed.


Por João Paulo Barreto

Há em Una, estreia no cinema do diretor Benedict Andrews, uma coragem semelhante à de Kubrick e a de Lars Von Trier. Enquanto o primeiro levou a obra de Nabokov ao cinema de modo a analisar o pedófilo Prof. Humbert adentrando em sua mente e observando suas fraquezas e tentações a partir de sua própria óptica (seja ela doentia ou não, definição que o filme não aprofunda), Von Trier inseriu na parte dois de sua obra essencial, Ninfomaníaca, uma cena na qual a protagonista disseca um também pedófilo através do sofrimento que ela acredita que o mesmo deva sentir na necessidade de dar vazão aos seus desejos criminosos.

Na obra de Andrews, cujo roteiro se baseia na peça escrita por David Harrower e adaptada aqui pelo próprio, tal julgamento, entretanto, é feito pelos dois lados. Não somente por uma óptica unilateral da vitima ou do perpetrador, ou de uma análise estritamente externa. Este acaba sendo o grande acerto da produção.

A proposta inicial de discussão do filme é analisar os traumas a partir da posição da vítima, que teve não somente seu corpo, mas sentimentos amorosos corrompidos aos 13 anos de idade. A protagonista título, seduzida por um homem mais velho, leva aquela cicatriz de forma solitária e conturbada até a fase adulta.  É quando finalmente decide confrontá-lo para, ao menos, compartilhar todo o sofrimento e trauma psicológico que sofreu não somente pela sedução, mas por ter sido abandonada física e afetivamente por aquele por quem se apaixonara e com quem teve sua primeira experiência sexual.

Una reencontra Ray após anos de traumas reprimidos
De um modo positivo da palavra, trata-se de um filme expositivo. Durante os noventa minutos de duração, vemos o reencontro dos dois depois de anos do ocorrido. Dali, descrições de sentimentos virão à tona de modo explosivo, com Una se abrindo pela primeira vez para alguém desde o momento em que percebeu que teve sua infância roubada. O fato da única pessoa que ela encontra para confiar aqueles sentimentos traumáticos ser justamente o homem que os causou, denota bastante da solidão sofrida pela jovem. Solidão não somente física, mas mental (“Você não faz nem ideia”, diz a jovem para sua mãe, denotando justamente sua solidão em todo aquele processo). Incapaz de sentir e de se relacionar, a personagem vivida por uma excelente Rooney Mara, responde com negativas a questionamentos sobre ter um namorado, busca fugas em transas casuais com estranhos e chora durante o sexo com alguém diretamente ligado ao seu primeiro amor.

Do lado de lá, está a presença de Ray, ou Peter, como é conhecido socialmente nos dias atuais, após quatro anos de reclusão e buscando fugir de seu passado criminoso. Na evolução de seu roteiro, Harrower opta por colocá-lo não em uma presença predatória ou exclusivamente doentia, mas em um estado de confusão mental e insegurança quanto aos seus sentimentos que, apesar de não justificar de modo algum suas atitudes, ao menos o insere dentro de uma categoria de personagem longe de clichês vilanescos ou construções unidimensionais. Trata-se de um homem que cometeu um crime grave ao dar vazão a um sentimento absurdo, mas que cometeu ato tão brutal quanto quando não pôde (ou foi impedido por circunstâncias fora de seu controle, como o filme exibe) demonstrar o quão importante Una era para sua vida, criando para a então adolescente uma ilusão ainda mais áspera.

Ray diante da vazão de um sentimento criminoso
Trata-se, entretanto, de uma obra cuja dissecação foca na perda sofrida pela sua protagonista. Presa a um sentimento e a ações que lhes foram apresentados de modo precoce, a infância que lhe foi extirpada e a face adulta que lhe é imposta acabam por machucá-la de modo irremediável. E enquanto Ray conseguiu uma nova vida e um novo nome para enterrar os seus erros do passado, sua vítima ficou presa àquele período. “Tenho o mesmo nome desde sempre. Vivo na mesma casa e sou julgada pelos mesmos vizinhos daquela época”, explica a jovem em meio ao desespero de sua dor.

Diferente de Paulina, obra de 2015 cujo desserviço para a sociedade é óbvio em seu discurso masculino acerca da submissão da vítima diante de criminosos supostamente criados por um meio e que têm nisso uma pretensa justificativa para seus atos monstruosos, Una oferece uma discussão mais rica em seu resultado final.

É um filme que não escolhe lados, preferindo dar ao espectador uma opção de conhecer as duas faces daquela história. Mas, felizmente, salienta que para o lado mais fraco daquela balança, a dilaceração psicológica foi bem mais intensa e que, por isso, seu perpetrador não necessita de comoção por parte do público, mas, sim, de seu desprezo.


Um comentário:

  1. Curti a crítica. Parabéns pelo texto. Me convenceu. vou ver!! Abração.

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