sexta-feira, 11 de maio de 2012

Entrevista: Fernando Neves




Com cinquenta e sete anos de carreira, o ator Fernando Neves é uma metralhadora. Basta uma única pergunta feita, para que o papo venha a durar horas, se o repórter deixar. O mais interessante é que, indo de história em história sobre suas experiências em cinema e no teatro, ele nunca parece perder o fio condutor, sempre retornando à ideia original que a pergunta lhe trouxe. Nada mais natural para um ator com tamanha bagagem e o privilegio de ter atuado sob a batuta de nomes como Jorge Bodanzky e Libero Luxardo, dois dos precursores do cinema brasileiro.  Fazendo questão de frisar que tem sua formação não nos sets de filmagem, mas, sim, nos tablados, esse paraense nascido em Santa Maria de Belém do Grão Pará, conhecida hoje apenas como Belém, em 1940 (“tenho 72 anos e ainda sou bom de cama, afinal, durmo 12 horas por dia”, brinca) tem no método de atuação de Stanislavky seu guia na longevidade da profissão (foi professor de teatro do colégio soteropolitano Severino Vieira durante 32 anos) e na simpatia e bom humor seu segredo para a longevidade saudável da vida. Nesse papo, Fernando falou um pouco sobre sua carreira nos palcos e nas telas; a emoção de ser premiado no Festival de Brasília justamente quando fez 50 anos de carreira e sobre seus dois filmes sob a direção de Edgar Navarro, Eu me lembro,de 2005, e o recente O Homem que não dormia.

Com a barba espessa devido a um papel no teatro que está ensaiando e bem à vontade em sua casa, ele me recebeu para esse papo sob uma condição: que eu o ajudasse a instalar sua nova tevê de LED que acabara de comprar (“finalmente me desfiz daquele trambolho de tubo de imagem”, brincou). Bom, hoje posso dizer que quebrei um galho para um monumento do teatro baiano e detentor de um Candango de Ouro, prêmio recebido por sua singela e, ao mesmo tempo, brutal atuação em Eu me lembro.

Confira o papo!

Fernando, em três filmes seus que eu assisti, o Eu me lembro, filme de Edgar Navarro, de 2005; O Enfermeiro, filme de 2010, dirigido por Maurício Amorim, e o mais recente, O Homem que não dormia, também do Navarro, seus personagens possuem uma característica voltada para a falta de contato humano, para a amargura. Você vê nesses três personagens alguma interligação?

Rapaz, olha... (pensativo) Eu não vejo essa relação entre eles, não. Apesar de, claro, haver algumas coincidências, como, por exemplo, ambos, tanto o de O Enfermeiro quanto o de O Homem que não dormia serem coronéis do interior da Bahia. No entanto, esses dois biótipos não são iguais. Eu acredito que consegui fazer uma diferenciação boa. Eu não estou criando os dois iguais em termo de representação, porque o coronel do filme do Navarro é muito exibicionista, muito pavão, sabe? Ele se julga o dono da região. Já o coronel de O Enfermeiro ele é essencialmente perverso, ranzinza, recluso. Sua índole é essa. É um homem que não tem mais amor pela própria vida uma vez que ele já está vegetando, nos últimos dias de vida. É um homem voltado apenas para a maldade. Então, para construí-lo eu tive que buscar o que tem de mal dentro de mim e colocar pra fora, utilizando, claro, alguns subsídios. Na ocasião eu reli Crime e Castigo, do Dostoievsky, e usei uma passagem especifica desse livro para buscar uma inspiração. A passagem foi o do assassinato da dona da pensão, um momento de muita violência que eu acabei me apropriando. O personagem do filme queria provar justamente isso, que o ser humano tem o mal e o bem dentro de si. A base toda da criação do coronel de O Enfermeiro era essa, a de que você deve pegar a sua maldade e jogar fora no personagem. Já no Eu me lembro, o personagem era um modelo do pai daquela época, os anos 50 e 60. Eu interpreto o pai do Edgar Navarro (diretor do longa autobiográfico). Ele não me deu muita informação sobre seu pai, pois eu poderia acabar fazendo uma cópia estereotipada dessa figura. Mas eu acabei me apoiando no roteiro, que era muito bom e acabou sendo muito premiado, inclusive. Além disso, eu peguei muita informação do meu próprio pai, uma vez que era uma personalidade típica de alguns homens daquela época, que subjulgavam a esposa, dizendo que a criação dela para com os filhos era ruim e que se estes não prestavam, a culpa seria dela. Meu pai tinha isso. Ele achava que os filhos não prestavam porque puxaram o sangue da mãe.


Uma das relações dos seus personagens em Eu me lembro e em O Homem que não dormia é justamente essa ligação com a esposa que você citou. No primeiro, ele só passa a valoriza-la quando fica viúvo. No segundo, ele enlouquece ao perceber que ela foi embora.

Isso. Seria essa a relação entre ambos. Com o Eu me lembro, eu fui seguindo uma linha do personagem até o momento em que ele se viu sozinho. Então, era uma pessoa que viva aos berros, que nunca falava baixo. Algo que lembrava muito meu próprio pai. O personagem usava o drama da intimidação, sabe? Eu fiz isso com ele até o momento da sua viuvez, que é o momento em que ele começa a mudar seu modo de agir. Ele vai, inclusive, com o passar do tempo, perdendo a visão. Uma bela cena que mostra isso é aquela em que o vemos assistir televisão bem perto da tela, uma vez que já não enxergava direito. E então seu modo de encarar a vida vai mudando. Sua relação com o filho, idem. (Pensativo) O Eu me lembro é um filme que representa um momento muito importante de minha vida. Na época eu estava com uma peça em cartaz, O grande amor de nossas vidas e o Edgar foi assistir. Três dias depois, ele me fez uma visita com o texto e me convidou para o papel do seu pai no filme. Lendo o roteiro (risos), eu vi uma cena em que o filho amaldiçoa o pai, pedindo a Deus que ele o mate. Virando a página, eu tomei um susto, pois a próxima cena se passava em um velório. Por sorte, era a morte da minha mulher, não a minha... (risos). Eu ainda ia continuar no filme. Mas o fato é que esse filme representa muito para mim, pois foi ele que me trouxe meu primeiro prêmio nacional. (Fernando Neves foi agraciado com o Candango de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Brasília- NE).

Pois é. Eu ia lhe perguntar, justamente, sobre essa data comemorativa e o prêmio de melhor ator coadjuvante em 2005, lá em Brasília.

A base da minha carreira é o teatro. Esse ano eu faço 57 anos de carreira. Apesar de, no começo, ainda quando vivia em Belém do Pará, ter feito quatro longas, três com o diretor Libero Luxardo e o Iracema – Uma transamazônica (filme pilar na carreira do diretor Jorge Bodanzky), o teatro sempre foi a base de minha profissão. Em 2005, eu estava comemorando 50 anos de carreira e o Eu me lembro, naquele ano, foi um dos grandes premiados no Festival de Brasília. Até aquele momento, eu nunca havia sido premiado. Havia sido indicado algumas vezes, mas nunca havia ganhado. Uma coisa curiosa da falta de maturidade é isso. Quando eu perdia, eu ficava arrasado. Chorava em casa, amaldiçoava Deus, aquela coisa bem dramática. Chorava mesmo. Afinal, qual o ator que não quer ganhar um prêmio? Então, chegou um momento em que eu passei a adotar um sistema de não ir mais a premiações quando fosse indicado. Porque eu ficava ali, nervoso, suando frio, passando mal mesmo, e na hora era aquela frustração. Voltar para casa sem o prêmio era terrível. Em 2005, no Festival de Brasília, foi diferente. Eu não estava esperando nada, sabe? Eu estava participando da festa com todo mundo do filme. O Edgar me convidou para ir também. Era só aquele clima de festival, mesmo. Mas, rapaz, quando anunciaram o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante foi, realmente, uma emoção. Lembro-me que, ao subir no palco para receber o Candango, eu expliquei que estava comemorando cinquenta anos de carreira e aquele era meu primeiro prêmio na carreira. Foi nesse momento que todos aplaudiram de pé. Foi uma emoção muito grande. Eu digo isso não com intenção de me vangloriar, ou algo do tipo. Mas, realmente, foi muito significativo. O Teatro Nacional é um lugar com capacidade para mais de 1400 pessoas. Vê-las todas de pé me aplaudindo foi uma das maiores emoções de minha vida.


Pra fechar, com 57 anos de carreira, quais os desafios que você enxerga na profissão de ator?

Olha, pensando agora nos três últimos filmes que fiz, o Eu me lembro, O Enfermeiro e O Homem que não dormia, eu posso dizer que busquei não me apoiar nas mesmas características dos personagens, uma vez que dois deles são coronéis (tanto o personagem de O Enfermeiro quanto o de O Homem... possuem essa falsa patente do interior baiano). O primeiro eu fiz em fevereiro de 2009, já o segundo em abril do mesmo ano. Ou seja, uma diferença pequena entre ambos. Então eu tive um cuidado muito grande com eles para não deixar cair no lugar comum, sabe? Uma vez que a tendência de você ser tentado a ir pelo caminho mais fácil é normal. Eu poderia ter pego a mesma interpretação que usei com O Enfermeiro  e trazer para o coronel do filme do Edgar. Mas eles tinham uma distinção. Apesar de ambos serem ruralistas e detentores desse título de coronel, acabavam tendo, cada um, sua pujança, diferentes tipos de caráter que permitiam ao espectador não confundi-los um com o outro. Então, respondendo sua pergunta inicial, posso dizer que o trabalho do ator não se restringe só a decorar o texto. Existe uma diferença muito grande entre o ator que decora o texto e o que o estuda. Eu conheço colegas que representaram durante vários anos a mesma peça e o cara não errava nada. Ele dizia o texto na integra. Quase como um gravador. Isso é uma qualidade do ator. No entanto, não é um desmerecimento quando ele erra. Eu, por exemplo, já tive que sair de cena para confirmar uma fala que havia esquecido. Agora, o que é importante é colocar como base a palavra respeito em relação à convivência com o colega e com o diretor. É ter a ciência de que, ali no tablado, ninguém é melhor que ninguém. A gente está ali para fazer um trabalho em conjunto. Esse é o desafio. Eu gosto de acreditar que sou, apesar de 57 anos de carreira, um eterno aprendiz. Esse negócio de se achar o mangangão, o melhor de todos, isso é uma estupidez. A palavra de ordem nessa profissão e algo que eu trago para minha vida é a humildade. Aquela do respeito pelo colega em cena. 

Estar sempre de bom humor. Segredo para jovialidade


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