domingo, 12 de março de 2017

Silêncio

(Silence, EUA, 2016) Direção: Martin Scorsese. Com Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Yôsuke Kubozuka.


Por João Paulo Barreto

Martin Scorsese traz para Silêncio uma análise de um elemento comum à sua filmografia. Porém, aqui, o aprofundamento de tal questão avança em um patamar ainda maior do que o visto em outros dos seus filmes. Trata-se da culpa católica que vimos, por exemplo, no tormento do Charlie de Harvey Keitel, em Mean Streets, ao brincar com as velas de um altar prevendo como seria quente o suposto fogo do inferno, ou até mesmo a crença cambaleante de um não menos atormentado Jesus ao contestar sua própria fé em A Última Tentação de Cristo.

O tormento dos jovens padres portugueses Rodrigues e Garupe em relação à própria fé, no entanto, reside não somente no receio de que a força na qual eles acreditam possa vir a falhar e que ambos sejam condenados. Aqui, esse medo não é individualista. Pelo contrário. A morte ou a vida de inocentes dependerá da força que ambos possuem em suas crenças. Em Silêncio, a tal culpa extrapola qualquer terreno imaginário dentro da religião e passa a figurar dentro do perigo real e imediato que o ceifar de vidas de pessoas que apenas buscam uma representação e uma fuga para o sofrimento que o seu meio as infringe.

Garupe e Rodrigues em perigoso solo japonês 
Longe de ser um trabalho catequizador, o longa de Scorsese oferece uma reflexão acerca do diálogo entre dois tipos distintos de fé. Não seria correto, entretanto, inserir o budismo, religião pregada no Japão do século XVII e período abordado pelo filme, como sendo a origem de um desses tipos de fé que a obra busca colocar em análise. A filosofia budista em Silêncio não é demonstrada em seus costumes ou hábitos. Apenas o uso dela por tiranos de uma forma a dominar e manter um controle intelectual, físico e financeiro de um povo. Ao colocar o catolicismo como uma saída para aquelas pessoas, o roteiro de Scorsese e Jay Cocks, por sua vez baseado no livro de Shûsaku Endô, não o privilegia como sendo o caminho da salvação para elas. Ele o coloca, sim, como um modo de mudança de horizontes para os camponeses explorados e como um risco de ruína a um amplo e eficiente modus operandi de um sistema de governo.

Contidos com fúria e violência, jesuítas portugueses são torturados e mortos pelo inquisidor japonês na tentativa de expurgar qualquer conceito ou fé católica das pessoas com as quais eles tiveram contato. No entanto, padre Ferreira, vivido por Liam Neeson, é levado de forma a servir como um exemplo mais eficiente da brutalidade com a qual serão contidos os levantes religiosos que contrariem a ordem local. É na busca pelo seu mentor que os jovens Rodrigues e Garupe seguem para o Japão na tentativa de rastreá-lo.

Padre Ferreira têm sua crença sufocada de modo a salvar inocentes

Em uma de suas cenas, vemos o personagem de Andrew Garfield, padre Rodrigues, dialogar acerca da inserção de sua religião em solo japonês. As palavras do inquisidor com quem ele conversa compara países como Inglaterra, Holanda, Espanha e Portugal, falando acerca da pretensa verdade oferecida por cada um deles e do modo como todos possuem interesse em espalhar suas crenças pelo Japão. Em uma eficiente metáfora, o fato de que nada cresceria em um solo pantanoso como o daquele país é posto em evidência. “O que faz da sua verdade algo mais válido do que as dos outros países?”, pergunta o japonês a Rodrigues. Ele apenas sorri respondendo ser aquela a sua única verdade. É uma cena cujo simbolismo prima no demonstrar a insensatez em ambos os lados. O do catequizador, que aqui visa espalhar a palavra bíblica como sendo a verdade, mas sem perceber os reais interesses econômicos por trás de tal invasão religiosa (ou fingindo não perceber), e o do inquisidor, que já conhece o poder de dominação de sua crença e sabe que não pode ousar perdê-lo para nenhum outro tipo de fé, principalmente a oriunda do ocidente. 

Observando o modo como as grandes navegações inseriram a igreja católica como uma instituição multibilionária em todo o mundo até os dias de hoje, não é de causar surpresa o interesse japonês em refutar qualquer tipo de crença oriunda da bíblia em seu solo.

Fé expurgada a qualquer modo
Entretanto, a intenção de Silêncio é outra. O que Scorsese propõe aqui é uma discussão acerca do valor da vida humana acima de qualquer fé. Seja ela ocidental ou oriental. Em cenas cujo primor entrega a longa experiência do cineasta (observe a sequência envolvendo o subir da maré), a elegância estética de Silêncio se equipara com o peso de sua narrativa. É filme denso, no qual o teor de sua reflexão permanece com o espectador durante muito tempo após o subir dos créditos. Ateus ou religiosos encontraram um modo de análise muito pertinente na obra.

Em um impactante momento do filme, vemos o padre Ferreira conversar com Rodrigues enquanto este se lamenta pelo sofrimento de fieis japoneses que seguem torturados e dependentes de uma renúncia do padre. “Não os compare a Jesus. Eles sofrem como ele, mas não têm o seu orgulho. Você não tem o direito de fazê-los sofrer. Eu escutei os seus lamentos de sofrimento desta mesma cela onde você está preso agora. Eu escolhi agir.” Ao final, é justamente esse tipo de reflexão que Silêncio nos faz exercer. A vida está acima de qualquer crença. De qualquer fé.

Rodrigues pergunta ao seu deus se está rezando para o silêncio. A resposta lhe ocorre de modo, ao mesmo tempo, tenro e brutal. Ações e razão se sobrepõem à qualquer supostamente inabalável fé.


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