sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entrevista com diretor e elenco de 2 COELHOS


Salvador foi uma das cidades onde aconteceu a pré estreia do primeiro longa de Alfonso Poyart, 2 Coelhos. Com a presença do diretor e dos atores Caco Ciocler, Marat Descartes e Thogun, o filme foi exibido ontem, dia 19 de janeiro, em duas sessões lotadas. Antes, a equipe pôde bater um breve papo com diversos veículos locais.

Oriundo da publicidade e com diversos comerciais no currículo, Poyart estreou na direção de curtas com o engraçado e sensível Eu te darei o Céu, trabalho de 2005 que tem André Gonçalves como um garoto de programa que traz uma genuína alegria à vida da solitária Taís (Nany di Lima) em seu aniversário. Em 2 Coelhos, o diretor e roteirista preferiu abordar dois temas mais espinhosos: a violência urbana e a corrupção política. Em uma conversa descontraída, Poyart falou um pouco das preferências estéticas em seu modo de filmar e como a música vem a influenciar essa narrativa. 

Além dele, estiveram presentes os atores Marat Descartes, Thogun e Caco Ciocler. Já conhecido do grande público pela sua atuação em mini-séries globais e no chocante Trabalhar Cansa, um dos filmes nacionais exibidos em Cannes ano passado, Marat falou sobre a comicidade de seu personagem, que caminha entre a psicopatia e o total nonsense junto com seus atrapalhados comparsas. Dentre eles, o Bolinha, vivido por Thogun, já conhecido pelo engraçado Cabo Tião, de Tropa de Elite 1 e 2. Sambista nato ("imperiano, graças a Deus"), Thogun falou da sua preocupação em criar um personagem que fugisse do estereótipo de vilão que ele já está habituado a fazer e de como o samba o ajuda a construir suas interpretações. Além deles, Caco Ciocler falou sobre a postura soturna de Walter, seu personagem, e como essa construção singular o torna dissonante de todo o resto do elenco e a verdadeira surpresa do longa.

Confira o papo! (Sem spoilers, eu garanto = ).

Foto: Texto e Cia/Assessoria UCI Orient


Película Virtual  - Seu filme possui uma montagem frenética com as inserções de animação e jogos de videogame, algo que remete bastante a obras como Corra Lola, Corra. A intenção de construir a narrativa nesse frenesi constante começa em que momento?

Afonso Poyart – Ah, sim, claro. Corra Lola, Corra. Esse é um filme que sempre me chamou muito a atenção. Eu sou um cara que começou com publicidade, fazendo animação e pós-produção. Esse é um estilo pessoal que trago desde a época dos meus comerciais. Eu sempre tive um estilo de montagem rápida, sabe? Eu gosto dessa coisa mais frenética e ágil.

Película Virtual – Em seu curta Eu te darei o Céu, isso é bem perceptível.

Afonso Poyart – (risos) Ali já é demais, pelo amor de Deus. Ali eu passei do ponto, mas tá bom (risos)

Película Virtual -  Em 2 Coelhos você mesmo é um dos montadores, diferente do curta Eu te darei o Céu.

Afonso Poyart – É. Eu e mais duas pessoas editamos o 2 Coelhos (Lucas Gonzaga e André Toledo). Esse tipo de filme exige uma visão externa a todo momento. E chega uma hora em um editor não dá mais e tem que entrar o outro. Nós acabamos fazendo um rodízio de editores e eles possuem um ritmo de trabalho incrível. São verdadeiros picotadores!

O diretor Afonso Poyart (Foto: Julia Cruz)

Película Virtual – Como surgiu a ideia de fazer um filme de ficção que mescla imagens fantasiosas com fatos concretos da realidade, como a corrupção no Brasil e a violência urbana em São Paulo, de uma forma tão engenhosa?

Afonso Poyart – O filme é bastante estilizado por que o personagem principal é um nerd, um geek, um cara que gosta de ficar horas e horas jogando videogame, lendo quadrinhos, vendo animações. Então, nos primeiros trinta minutos do filme, quando a gente está explicando os personagens, é quando há muita animação e efeitos visuais em um ambiente estilizado pelo fato de que aquela é a óptica do Edgar (Fernando Alves Pinto). É como ele vê o mundo. Mas o terreno onde ele está transitando é extremamente real. É uma metrópole sul-americana absolutamente louca, um cenário onde você tem corrupção, bandidos e violência. É a realidade do Brasil. É um tema absolutamente real e palpável e ninguém pode negar isso. Mas, conforme a trama que esse cara montou vai se desenrolando, eu fui tirando os efeitos visuais que retratam seu olhar para com o mundo e as coisas vão se tornando reais. É como se ele transformasse em sua realidade o videogame que ele costumava jogar. Toda aquela violência que ele via somente na tela do jogo acaba acontecendo com ele. Toda aquela correria, tiroteios, perseguição de carros, acabam sendo trazidas para a sua vida real.  Logo, logo ele está correndo e tomando tiro. É quando ele transforma o videogame na sua própria vida.

(Foto: Julia Cruz)

Película Virtual – Na trilha sonora você trouxe um som bem atual, como a canção do 30 Seconds to Mars e a trilha incidental é do André Abujamra. Como se deu essa mescla de estilos?

Afonso Poyart – O Abujamra fez uma coisa mais clássica, mais cinema incidental, mesmo. Ele usou graves, uma coisa mais percussiva, forte. E ai tem essas músicas que a gente comprou que é uma coisa mais pop, sabe? Radiohead, 30 Seconds to Mars, por exemplo. Eu acho que essa mescla foi interessante. Eu gosto muito de usar músicas que já existem, mesmo, sabe? Músicas que a gente ouve no rádio. Essas músicas já têm um componente de emoção para cada um que escuta. São canções que já existem há cinco, dez anos. Então, quando você pega essas canções e elas já têm essa bagagem de recepção e coloca dentro de uma cena, cria uma outra coisa totalmente diferente. A música se transforma. Eu gosto dessa brincadeira.

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Película Virtual – Marat, para compor um personagem como o Maicon, um vilão com uma veia um tanto tragicômica, você buscou alguma inspiração em outro personagem?

Marat Descartes – Muito do Maicon, da construção do personagem dele, para não cair em uma caricatura de bandido malvado, aquela coisa caricata, eu busquei na minha memória afetiva de um trabalho que fiz e que foi muito forte para mim no teatro. Foi o Bereco, de Oração para um Pé de Chinelo, do Plínio Marcos. Eu fazia o Bereco, que é o Pé de Chinelo, um bandido que fica confinado dentro de um quarto, fugido da polícia, com um bêbado e com uma prostituta. Foi uma peça muito legal que eu fiz com 22 anos, então eu acho que ficou muito interiorizado em mim. A alma de um bandido (risos), de alguém que pega numa arma e resolve dar tiro para matar, mesmo, sabe? Agora, por outro lado, o que eu acho que o Maicon traz de diferente em relação ao Bereco foi isso que você citou. Esse lado do humor.

Marat Descartes interpreta o vilão Maicon (Foto: Julia Cruz)

Película Virtual – E, inclusive, o comportamento brutal dele não é algo tão pesado.

Marat Descartes – Exato. Não é algo tão pesado. Principalmente porque não é a proposta do filme. Ele trata de violência, mas de uma forma leve, bem videogame, algo mais estilizado, com grafismo. Nesse sentido a gente teve liberdade de criar com verdade, no meu caso um bandido, mas também com humor, com toques cômicos.

Película Virtual. – Dez anos depois, aparece uma montagem no cinema nacional que é tão impactante quanto foi a de Cidade de Deus, no entanto a carga dramática do vilão não é tão pesada quanto foi a do Zé Pequeno. Ele não assusta tanto a platéia quanto a presença do Leandro Firmino da Hora (ator que viveu Zé Pequeno). É algo proposital? Não é uma questão da atuação ser menos impactante. Ou seja, você compôs um personagem cuja comicidade sobrepõe a violência em alguns pontos.

Marat Descartes – É, eu busquei justamente isso. Até mesmo porque o bando tinha personagens muito engraçados. O cara que enfia a espada em determinado personagem é hilário. “Não, eu vou enfiar no baço, porque aí sangra mais, mas ele não morre tão rápido” (risos). A gente tinha diversos personagens, cada um com sua personalidade. E acabou se tornando um bando de trapalhões.

(Foto: Julia Cruz)
Película Virtual – Se chamar o Maicon de “filadaputa” ele, realmente, se transforma...

Marat Descartes  – (risos) Pois é. Ele sai do sério. São mil tiradas como essa que não deixam de tornar a coisa realista, violenta, mas tratada de uma forma um pouco mais leve.

Película Virtual – Uma das cenas chave filme acontece na Praça Charles Miller, em frente ao Estádio do Pacaembu. É mais um desses detalhes surreais do filme, porque, em pleno bairro nobre paulistano acontece uma negociação de sequestro onde um cara leva um tiro a queima roupa...

Marat Descartes – Realmente, tem mil coisas engraçadas assim no filme. Quando se assiste a um longa de ação que tem mil explosões e tiroteio, você fica imaginando: “Mas, gente, onde que acontece isso?” (risos). Acontece é na Praça Charles Miller, a explosão é ali no viaduto do Glicério, um baita tiroteio na Praça Roosevelt, então, para quem mora em São Paulo é algo muito legal ir reconhecendo os lugares e vai conseguindo visualizar que isso pode acontecer na sua cidade.

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Película Virtual – Thogun, mesmo sendo um cara brutal, assassino, traficante, seu personagem, o Bolinha, acaba tendo um comportamento bastante cômico. E isso o torna diferente por fugir daquele choque de brutalidade para com o público. Você teve essa preocupação ao sair desse tipo de personagem mais chocante?

Thogun – (risos) Olha, eu vou te falar, essa era a minha maior preocupação. Mas, quando eu li o roteiro, para minha surpresa, o Afonso (Poyart, diretor do filme) me passou isso. Porque eu venho de vários personagens violentos, tanto em TV quanto em cinema, e eu não queria mais estereotipar isso. Então, é a simplicidade do “malandro agulha”, aquele malandro antigo, que faz o trabalho dele, mas não esculacha. Ele resolve! E está sempre com uma piada engatilhada, está sempre com um sorriso. Tem sempre uma tirada pra soltar.
Thogun vive o matador Bolinha (Foto: Julia Cruz)
Película Virtual – “Vai buscar a minha espada”, (risos).

Thogun – (risos) Isso! E ele não fala muito. (imitando o Bolinha) “Se eu te mandei buscar a espada, então vai lá e busca, cara. Não vou nem falar mais nada, sacou? Vai buscar e acabou. Papo reto sem curva”. Essa leveza do personagem, o Afonso passou de um modo a tentar humanizar o Bolinha. Aí essa humanização veio através da linha do humor, mas sem ser uma coisa escrachada ou piegas. Tentamos fazer uma coisa com mais solidez. E aí funcionou bem pra caramba.

Película Virtual – O Afonso Poyart falou em entrevista que boa parte do roteiro foi composta por improvisações em cena. Qual foi a sua colaboração?

Thogun – Ah, cara, eu trouxe algumas frases do Carlos Cachaça (sambista carioca, um dos fundadores da Mangueira), trouxe brincadeiras do Beto Sem Braço (também sambista, compositor de Ai que Vontade, interpretada por Oswaldo Cruz). São pessoas que eu conheci no Rio de Janeiro, uma vez que sou sambista desde moleque. (levantando as mãos para o céu) Sou imperiano graças a Deus! (risos). Então, eu tive que aprender alguma coisa com esses caras. É o samba, cara! O samba ajuda a gente a buscar elementos para a atuação. Poucos caras tiram isso do samba. Eu, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho, a gente tira muita coisa do que aprendemos no dia a dia com o samba. É fazer jus a essa escola.

(Foto: Julia Cruz)

Película Virtual – E se fosse filmado no Rio ao invés de São Paulo? Qual seria a diferença para você?

ThogunEu acho que filmou no lugar certo. Se fosse no Rio, um lugar onde muitos filmes estão acontecendo, poderia cair em um estereótipo, entendeu? Então, é importante sair desse estereótipo. Eu falei pro Afonso na ocasião das gravações: “E aí, Afonso? Eu venho como? Zona Leste de São Paulo, na linguagem, na gíria local, nas manias?” e ele respondeu: “Não, cara. Vem carioca, mesmo. O Bolinha é carioca. Ele migrou do Rio para São Paulo ”. Então, tá bom! (risos) Tô em casa!

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Película Virtual – Caco, o teu personagem acaba sendo uma peça chave e a maior surpresa do longa. Sempre soturno, ele acaba se desenvolvendo de forma totalmente diferente dos outros.

Caco Ciocler – Eu entendi que o Walter é um cara que acaba trabalhando no contra fluxo, ao contrário do que a gente está acostumado, que é sempre deixar bem claro para o espectador o que ele (o personagem) está sentindo. Ele nunca poderia ser apreendido pelo espectador. A platéia nunca poderia entendê-lo até que visse a última cena.

(Foto: Julia Cruz)
Película Virtual – E o modo como ele se comporta durante todo o longa ajudou bastante.

Caco Ciocler – Exato. O fato dele ser silencioso, pontual e soturno ajudou bastante. Claro, o que acontece com ele durante o filme acaba o deixando assim. Mas, mais do que isso, as pessoas tinham que entender que havia uma coisa muito forte acontecendo ali dentro, mas não podiam entender o que era até o momento certo. A construção foi nesse sentido, nesse jogo de entrega e não entrega. E até a aparência desleixada dele durante toda a narrativa já se mostra como razão para o que aconteceu com ele.

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2 comentários:

  1. Boas entrevistas, JP! Tô ansioso pra ver logo esse filme! Grande abraço!

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  2. Vale muito a pena, Vitor! Ainda bem que há filmes que respeitam o cinema nacional. Espero que as pessoas assistam, uma vez que a bilheteria daquilo chama Agamenon só aumenta. pfff...

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