quarta-feira, 20 de julho de 2016

A Lenda de Tarzan

(The Legend of Tarzan, EUA, 2016) Direção: David Yates. Com Alexander Skarsgard, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Margot Robbie, Djimoun Hounson.


Por João Paulo Barreto

É inegável que tenha havido certo preconceito com a proposta de se atualizar o herói Tarzan para o século XXI. Até mesmo este escriba aqui ficou com um pé atrás quando soube que a produção havia recebido o sinal verde e que seria ambientada não como uma introdução, mas como um retorno do personagem às suas origens africanas. No entanto, o que parecia uma ideia um tanto descabida, começou a fazer sentido no momento em que as primeiras imagens de Alexander Skarsgard no papel do herói surgiram e, claro, quando o primeiro trailer foi divulgado. E todo preconceito acabou caindo por terra na sessão onde a nova aventura não só convenceu, como até empolgou.

A ambientação escolhida pelo diretor dos quatro últimos filmes do Harry Potter, David Yates, demonstrou-se acertada ao centrar o primeiro ato da trama na Londres do começo do século XX, denotando, assim, uma eficiente recriação de época ao exibir a capital inglesa na sua transição entre rural e urbana. No período em questão, o império belga começa a levantar suspeitas de escravidão no Congo africano e um emissário dos Estados Unidos (Samuel L. Jackson) decide persuadir o já aclimatado e urbano John Clayton, vulgo Tarzan, a retornar à selva no intuito de ajudá-lo na investigação sob a autoridade de emissário do Parlamento Britânico.

Jane e John Clayton, vulgo Tarzan: o lar os chama de volta
No papel de vilão está o já acostumado à função (e precisando se reinventar) Christoph Waltz, que interpreta Leon Rom, militar belga que caça diamantes e faz um acordo com Mbonga, o chefe de uma tribo local (Djimon Hounson) no sentido de lhe entregar as pedras em troca de Tarzan, com quem o líder possui uma dívida de sangue a coletar. A trama, apesar de girar em torno do resgate de Jane (Margot Robbie), que acaba por acompanhar Clayton em seu retorno ao continente africano, tem no reencontro de Tarzan com suas origens e no modo como isso é apresentado ao espectador através de eficientes flashbacks, bem como em atuais momentos emocionais e tensos, seus pontos altos.

A começar pela cena em que Clayton reencontra uma família de tigres com quem cresceu. O que pareceria um momento que beiraria ao ridículo, acaba sendo exibido com uma ternura que mostra, já em seu primeiro contato com a África onde cresceu, a importância do local para ele. No decorrer dos acontecimentos, o filme opta por inserções ocasionais (e bem localizadas) da origem de Tarzan, que teve seus pais mortos por gorilas e acabou sendo adotado ainda bebê por uma das fêmeas do bando. Nesse retorno, o filme acerta ao exibir o conflito entre o homem e seu irmão gorila, em uma tensa cena de luta, na qual os ferimentos de Tarzan recebem uma curiosa forma de se aplicar pontos usando formigas.

Sam L. Jackson funcionando bem como escape às vezes cômico do filme
Visualmente eficiente, com sequências de voo entre os cipós realmente impressionantes (e que lembram a animação Tarzan que a Disney lançou em 1999), o longa, apesar de inegavelmente parecer artificial em uma das passagens envolvendo uma debandada de animais, tem um saldo final positivo no que se refere aos seus efeitos especiais. Além disso, Skarsgard se firma como uma ótima opção para encarnar heróis de filmes de ação, acertando, aqui, ao manter seu personagem dentro de uma atuação contida, de poucas palavras, o que condiz com a sua origem.

Apesar de se manter como uma história realizada a partir da visão do colonizador europeu e sua ingerência na vida das tribos que deseja dominar, sendo necessário um herói branco para que a vida daquelas pessoas não corra riscos (vide o momento em que Tarzan liberta escravos de um vagão de um trem), A Lenda de Tarzan acaba por entregar o que promete. Uma aventura que não ofende a inteligência do espectador, um protagonista convincente em suas ações e motivações, um acompanhante que apresenta seus momentos cômicos em ótimas sacadas de escape do filme, além de um final catártico no qual espectador é bem recompensado.

O que há para se odiar tanto em um longa assim?
  

O também herói Chefe Mbonga (Houson): motivação justa para vingança

Um comentário:

  1. As pessoas estão tão acostumadas a odiar coisas bacanas, ou quem sabe serem levadas pela opinião alheia, que não enxergam pontos positivos. John Carter sofreu dessa perseguição idiota, mesmo sendo um filme muito melhor do que pintaram por aí. Tarzan, ao meu ver, sofre desse mesmo preconceito indevido. Esse filme soube respeitar a tradição do personagem, a incorporação do legado de filmes (o grito de Johnny Weissmuller que não existia na versão original a frase "Mim, Tarzan, você Jane.") e quadrinhos à mítica do personagem. É muito mais respeitoso à história do Homem Macaco do que Greystoke, pois define bem os conflitos que o lorde inglês tem ao não se encaixar perfeitamente na civilização. Não foi um filme de origem, ainda bem, apesar dessa origem ser bem inserida na história, mas foi uma homenagem mais do que justa à esse grande monumento da cultura pop.

    ResponderExcluir