sábado, 24 de outubro de 2015

Ponte dos Espiões

(Bridge of Spies, EUA, 2015) Direção: Steven Spielberg. Com Tom Hanks, Mark Rylance, Alan Alda, Amy Ryan, Austin Stowell, Jesse Plemons, Sebastian Koch.




Por João Paulo Barreto

Uma das características mais aprazíveis de Ponte dos Espiões, novo acerto de Steven Spielberg após os medianos Cavalo de Guerra e Lincoln, é o modo como o diretor dá preferência em desenvolver as características intimas de seus protagonistas sem necessariamente usar esse artifício como uma muleta emocional para levar adiante o filme.

Como o título já entrega, é um filme sobre espionagem. Não necessariamente um filme sobre gadjets ou rotina de espiões. Claro, vemos algo disso dos dois lados do tabuleiro EUA vs URSS, mas o ponto principal de observação aqui são as circunstâncias cruciais de vida ou morte em que aqueles homens de ambas nações são colocados sem a real vontade de estar ali, “morrendo” por seus respectivos países.

Não me entenda mal. Patriotas eles, de fato, são. Não estão dispostos a ceder perante tortura, ameaças de execução ou penas perpétuas de encarceramento. Mas é notável um peso em seus olhares cansados e desejo por outra vida que o roteiro dos irmãos Coen e do quase desconhecido Matt Charman salienta com um cuidado impressionante em não resvalar para o melodramático cuja armadilha diversas obras de guerra já caíram.
Tempo de paranoia: Jim é perseguido por figura suspeita
Aqui, o conflito apresentado é a Guerra Fria, quando em meados da década de cinquenta, Estados Unidos e União Soviética mediam suas forças estando ambos amarrados pela coleira que a possibilidade de um novo conflito mundial poderia trazer de consequências para ambos. A ameaça de uma nova bomba atômica assombra todo o planeta. Ambos possuem espiões infiltrados em suas redes de informações.

Em Nova York, Rudolf Abel, suposto russo cuja nacionalidade nunca é confirmada, é preso sob suspeita de passar segredos militares para os comunistas soviéticos. Sobrevoando o país comunista a 70 mil pés de altura e tirando fotos com supercâmeras, o piloto Francis Powers é abatido (em uma sequência espetacular) e preso. Na Alemanha, o estudante americano de Economia, Frederic Pryor, trabalha em sua tese sobre comunismo quando é preso diante do muro de Berlim em construção sob a acusação de espionagem.

Na difícil missão de defender Abel, o advogando da área de seguros (!?), James Donovan (Hanks), vê o caso ganhar dimensões nacionais e uma fama de vilão é aplicada a sua pessoa. Trabalhando sob o velho argumento de que todos merecem uma defesa, Jim sabe que não tem chances de ver seu cliente inocentado das acusações. Quando a pena de morte lhe é destinada, resta ao competente bacharel a ideia de convencer o juiz a manter Abel vivo como possibilidade de barganha em caso de um soldado americano ser capturado pelos soviéticos. E, obviamente, é justamente o que acontece.

Não confie em ninguém: Jim em solo alemão busca formas de negociação

No entanto, como disse, o roteiro dos Coen (baseado em fatos reais) escapa das armadilhas de um dramalhão focado nas condições adversas nas quais os espiões e o estudante que estava na hora e local errado se encontram. E creio ter sido um desafio para Spielberg não se render a esse tipo de caminho fácil, uma vez que, em muitos dos seus filmes, o drama humano e as lágrimas acabam por afogar qualquer outra tentativa de construção fílmica. Outra razão para esse resultado positivo está na escolha de Thomas Newman na criação de uma trilha sonora que, apesar de tons melancólicos em certos momentos, mantém-se compenetrada e destinada a salientar as tensões que aqueles homens estão passando.

Ainda graças aos Coen, que mantêm um humor afiado em seu texto, principalmente embalado pelos diálogos rápidos de Tom Hanks nas situações familiares e de trabalho, Ponte dos Espiões se sobressai não somente como uma eficiente reconstrução de época (a direção de arte é sublime), mas como uma obra focada nas relações humanas. E isso sem a necessidade de seguir os já citados fáceis e clichezados caminhos narrativos que essa escolha pode possuir.

"Todos merecem uma defesa": Jim e seu cliente espião, Abel
É uma obra elegante, repleta de subcamadas que apresentam críticas a uma época de vigilância, perseguições e paranoia, que, apesar de se passar nos anos 1950, podem muito bem ser aplicadas aos dias de hoje. Spielberg, claro, faz questão de pintar os Estados Unidos como uma terra de sonhos, comparado ao inferno que devia ser viver na União Soviética ou Alemanha daquele período. A óbvia (e até um pouco banal) rima visual que ele fez ao comparar uma viagem em um trem germânico com a de um trem novaiorquino beira um tanto no artificialismo, apesar de trazer importante reflexão.

Porém, ao olharmos para os dias de hoje, quando a abordagem a cidadãos negros por policiais brancos se difere grotescamente do modo como aconteceria se os suspeitos fossem caucasianos; quando estudantes estadunidenses matam professores e colegas de classe com rifles; ou quando adolescentes com distúrbios adentram igrejas de comunidades afrodescendentes de arma em punho, notamos que a paranoia daquela década do século passado não se compara a dos dias de hoje. E justamente no país que Ponte dos Espiões vende como sendo o mais seguro de todos.  



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