sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pearl Jam Twenty

(EUA, 2011) Direção: Cameron Crowe.



Qual a sensação de se ouvir uma banda de rock que você realmente ama? Qual a importância de se ter um ídolo? O que aquela pessoa cuja voz te acompanha em momentos de fúria, solidão, melancolia ou alegria pode fazer por você? A voz de Eddie Vedder me acompanha em todos esses momentos faz um tempinho. Na verdade, desde o final dos anos noventa, quando um grande amigo me apresentou a ela. De lá pra cá, são muitos os momentos em que a voz desse cara comum, que evita sempre o rótulo de astro, me acompanhou. Tive o prazer de vê-lo tocar ao vivo há seis anos. Repetirei a dose em novembro. Uma experiência acachapante.  Dia 20 de setembro, apesar de em menor escala, essa experiência se repetiu. A sessão única do documentário Pearl Jam Twenty foi como uma visita a velhos amigos.

O longa dirigido por Cameron Crowe, experiente jornalista especializado em rock and roll e cineasta de obras ímpares como Jerry Maguire e Quase Famosos constrói a história de vinte anos da banda formada por Vedder, Jeff Ament, Mike McCready, Stone Gossard e Matt Cameron em um filme enxuto, repleto de imagens emblemáticas, depoimentos marcantes e músicas avassaladoras. Ver os caras comentando sua relação com a fama, fãs, dinheiro, drogas e com o amadurecimento de uma forma tão sem reservas, nos torna ainda mais próximos deles.

Crowe e Mike
O filme apresenta cenas raras, depoimentos da época, mesclando-os às imagens atuais da banda. O filme traz o Pearl Jam desde sua gênese, oriundo dos escombros do Mother Love Bone, banda onde Stone e Jeff tocavam e que acabou após o vocalista, Andy Wood, morrer de overdose em 1990. A partir de imagens de palco e depoimentos, é possível conhecer a figura carismática de Wood, cuja vontade de tocar para grandes platéias em estádios e arenas cativa justamente por já sabermos o final daquele jovem sonhador. Chris Cornell, vocalista do Soundgarden, é de uma sutileza definitiva ao dizer que “com Wood, morreu a inocência daquele período em Seatlle”.

Contando com uma montagem eficiente de Kevin Klauber e Chris Perkel (este último responsável, também, pela montagem do documentário Johnny Cash´s America), o ritmo do filme torna-se acelerado, com a inserção de imagens cobrindo a narração do próprio Crowe, como na grande sacada ao inserir fotos de vocalistas de bandas famosas quando a cidade natal de cada um deles era citada. O filme passeia pelos vinte anos da banda sem parecer episódico, sem precisar inserir para o espectador divisórias na narrativa para que seja necessário fazê-lo se localizar no tempo. Pelo contrário. Muitas vezes as imagens passeiam por períodos distintos, apenas identificáveis pela aparência dos integrantes mais velhos ou mais jovens.

Diferente do também eficiente Back and Forth, filme que contou a história do Foo Fighters, Twenty não se prendeu a uma divisão da carreira do Pearl Jam com foco exclusivo em seus álbuns. Crowe não se limitou à montagem básica de exibir a capa de cada um dos discos para, a partir daí, contar a história daquela fase. Em certos momentos, sabe-se que tal álbum está sendo citado apenas pelo fato dele aparecer nas mãos de Vedder ou Gossard, nas imagens de arquivo, algo que traz ritmo à narrativa com foco justamente no que interessa: a história como um todo e não em capítulos.

O filme ilustra cada fase dos anos 1990 de forma milimétrica. Desde o primeiro encontro entre Vedder e os futuros companheiros de palco, cuja circunstância foi devido ao envio de uma fita K7 por parte de Eddie para que Gossard e Ament pudessem avaliar; a surpresa dos outros ao perceber a voz do vocalista; os primeiros shows em inferninhos de Seattle; a ascensão gradativa à fama; a gravação de Ten, primeiro álbum; a atitude de Vedder em não querer ser entrevistado pela Time, por discordâncias políticas, mas que acabou sendo capa da revista do mesmo modo (algo que Crowe apresenta de forma inteligente ao contrastar o depoimento do vocalista ao de Bob Dylan, nos anos 1960, sobre o mesmo assunto).

Crowe e Eddie Vedder
Os pontos mais marcantes da banda são trazidos à tona. Um dos altos é a pretensa richa entre Kurt Cobain e Eddie Vedder, sendo que o primeiro é apresentado de modo agressivo, destilando ironia contra o vocalista do Pearl Jam por achar a banda comercial demais. Porém, de modo surpreendente, Crowe vai, gradativamente, exibindo as mudanças de opinião de Cobain, algo que se torna tocante em uma cena específica que não pode ser falada justamente pelo fato de que o diretor a guardou para o final do trecho em que a relação dos dois é trabalhada. Apenas adianto ter sido um dos momentos de maior impacto emocional do documentário.

Outros momentos da trajetória da banda são destrinchados, como a surpresa deles em vender mais de um milhão de cópias de Vs, segundo álbum, em uma semana e não saber ao certo como assimilar isso; a briga com a Ticketmaster pela discordância em relação ao valor dos ingressos, que a banda considerava abusivo; o encontro com ídolos como Neil Young e Peter Townshend; o processo de composição de letras tão pessoais como Alive, Black e Daughter, inicialmente chamada de Brother. Pode-se dizer que o documentário se atem, em boa parte, aos primeiros dez anos da banda.

Porém, o maior trauma que o Pearl Jam passou aconteceu nos anos 2000, quando nove fãs morreram pisoteados ao serem prensados contra a grade de proteção do palco em um show na cidade de Roskilde, na Dinamarca. A tragédia quase fez a banda terminar. As imagens da época mostram Vedder chorando no palco ao presenciar o acontecido sem poder fazer nada. Percebe-se o quão é difícil para eles falar sobre o assunto.

Curioso perceber o amadurecimento de cada um deles nesses vinte anos. O mais óbvio é o próprio Vedder, que parece ter sido afetado particularmente pelo passar do tempo. Se no começo, seu sorriso cativante estampava cada imagem sua aos vinte e poucos e seus discursos, muitas vezes, pareciam ser proferidos sem muita reflexão prévia, hoje, aos quarenta e seis, percebemos um homem pensativo, que parece medir as palavras, mas que ainda exibe aquele mesmo sorriso de duas décadas atrás.

No final, Pearl Jam Twenty acaba sendo uma ode aos fãs da banda, que se sentem privilegiados pela valorização dos seus ídolos em lutarem contra o monopólio extorsivo da venda de ingressos, em lançarem todos os seus shows em CDs “piratas oficiais” a custo de mínimo (os famosos Bootlegs) e por se manterem fiéis a uma ideologia digna onde a importância do fato de se enxergar como ídolo não se restringe a uma pose, mas, sim, a toda uma atuação social e política. Algo que a Eddie Vedder e Cia sempre tiveram.

Coisa de Cinema



Após duas semanas sensacionais em agosto, quando participei da oficina de crítica com João Carlos Sampaio e fui selecionado para compor o júri jovem do Panorama Internacional Coisa de Cinema, agora vêm os frutos : )

A partir dessa semana, comecei a publicar meus textos, também, no site www.coisadecinema.com.br, um dos espaços mais fiéis ao verdadeiro espirito da crítica cinematográfica longe do egocentrismo e vaidade que se vê em muitos ambiente virtuais por ai. O primeiro, Transeunte, de Eryk Rocha, você lê clicando aqui, ó.

sábado, 10 de setembro de 2011

Apollo 18 - A Missão Proibida

Apollo 18 (EUA, 2011) - Direção: Gonzalo López-Gallego. Com Warren Christie, Lloyd Owen e Ryan Robbins.



Desde 1999, quando A Bruxa de Blair estreou nos cinemas faturando alto nas bilheterias, várias foram as produções que abordaram a ideia de filme ficcional baseado em imagens supostamente reais, como um documentário. Apesar do estilo não soar mais como novidade, algumas obras recentes se apresentam eficazes nessa premissa, como REC, Atividade Paranormal, Cloverfield. Não é o caso deste Apolo 18, lançado em agora em 2011

O filme utiliza como pano de fundo a missão fictícia da nave título, ocorrida em 1972, quando três cosmonautas partiram em direção à lua com a missão de recolher rochas e filmar todos os minutos que passaram na órbita do asteróide. Um deles, John (Robbins), permanece na nave que orbita o satélite natural, enquanto Nate (Owen) e Ben (Christie) descem à superfície lunar em uma cápsula para fazer reconhecimento do local e recolher as amostras.

Abusando do uso de efeitos para simular as condições primárias dos equipamentos de gravação de 39 anos atrás, com imagens sem muita definição, mas com um surpreendentemente (e impossível para as condições da época) espetacular sistema de captação de áudio, o filme apresenta seu perfil documental desde o texto de apresentação, que explica que as imagens foram postadas em um site para, depois, terem sido editadas no modo como o resultado final foi exibido, até os depoimentos dos militares sobre a missão que estão prestes a cumprir. Uma forma nada elegante de pedir pageviews para o tal site, diga-se. Não citarei o site justamente por achar patética a idéia do roteiro.

Deixando de lado as dúvidas sobre a tecnologia dos equipamentos para captação de áudio, a produção tem um trabalho notável ao utilizar o som ambiente de modo a causar no espectador uma tensão crescente, uma vez que já desconfiamos que todo aquele silêncio lunar não pode representar algo positivo. Um ponto positivo nessa abordagem do silêncio como modo de causar desconforto ao espectador, é que o suspense não utiliza o clichê de substituir a ausência de som para barulhos repentinos com a intenção gratuita de assustar. Em determinada cena, os astronautas, que filmam tudo o que vêem, até brincam com isso.

Com referências diretas a Alien, o filme do espanhol Gonzalo López-Gallego (em sua primeira experiência em Hollywood – teria sido melhor esperar mais um pouco pelo roteiro ideal?) apresenta-se eficaz como suspense, construindo um ambiente claustrofóbico que durante toda a projeção vai tornando o cenário cada vez mais sufocante. E falando em Alien, é impossível não lembrar da criatura do filme de Ridley Scott ao observar como os parasitas lunares utilizam o corpo humano para se nutrirem. Prova de que o roteiro de Brian Miller não prima pela originalidade, mesmo.